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Hora H

A revolução Syriza

Não deixa de ser assustador que a União Europeia, cinco anos de austeridade depois, se tenha tornado o inimigo da Grécia e o elemento agregador de quem, vontando Syriza, vota contra esta Europa. 

"Se os melhores homens se recusarem a participar na política, terão como maior castigo serem governados por homens piores do que eles." Platão 

 

Escolhendo a Grécia o Syriza, o Syriza escolherá que Grécia? A da linha radical que se vira contra a União Europeia? Ou a da linha dura que exige condições negociando dentro da União Europeia? A resposta é tão importante para os gregos como para os demais europeus.

A enorme expectativa sobre o futuro governo grego, sobretudo da esquerda europeia, mostra bem como esta vitória é histórica e resulta do esvaziamento político do centro político em tempo de austeridade. Neste momento, a opinião pública europeia parece dividir-se entre muito mais do que o desejo de que o Syriza tenha a força para virar a política europeia do avesso e o medo da esquerda radical; neste momento, a opinião pública divide-se também entre a certeza de que o Syriza vai avançar com todas as suas propostas e a intuição de que a chegada ao poder lhe dará um banho de realidade. O partido já se tornou muito mais moderado à medida que a campanha foi avançando.

A Europa já passou por várias deceções políticas anti-austeridade, tendo a maior delas sido a da François Hollande em França. Depois, foi Matto Renzi em Itália. Dois ratos políticos que saíram de uma montanha de expectativas. O Syriza não quer sair do euro como o espanhol Podemos mas fez uma campanha baseada em algumas promessas importantes e em algumas promessas preocupantes. Percebe-se que queira renegociar a dívida pública, dada a enormidade da coisa: quase 180% do PIB não se paga nem na Grécia nem na China. Mas tendo em conta que grande parte da dívida pública é hoje detida por institucionais, um perdão significa um prejuízo não para bancos mas para outros estados: serão os contribuintes dos outros países a suportar a perda. E isso mostra que não é apenas por cisma ideológico que há países que não estão para dar isso de barato.

Nestas condições, é ainda mais difícil aceitar as promessas do Syriza de aumento de salários da função pública e das pensões de reforma. Porque essa despesa irá provavelmente devolver as contas públicas ao vermelho e, portanto, aumentar... a dívida pública. Não seria estranho que esta promessa fosse a primeira a ser engavetada ou, pelo menos, adaptada. Nem estranho nem errado. Sobretudo se fosse em troca de outras medidas políticas.

A Grécia vive num profundo e prolongado sufoco, com níveis de pobreza e de desemprego intoleráveis. É pois um povo disposto a tudo e que precisa de rasgar para fora porque já está saturado de rasgar por dentro. E porque a austeridade, sendo inevitável, falhou as expectativas que criou de que depois de anos de tempestade alguma bonança viria. Não veio. Depois de austeridade veio austeridade. Não veio crescimento nem recuperação.

A vitória do Syriza inspira a esquerda europeia e força uma negociação com a ortodoxia austeritária europeia, que mesmo depois do fracasso da sua resposta não tem outra para dar. A pressão externa para domar o futuro governo grego será brutal. Mas não deixa de ser assustador que a União Europeia, cinco anos de austeridade depois, se tenha tornado o inimigo da Grécia e o elemento agregador de quem, vontando Syriza, vota contra esta Europa.