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Hora H

Cohen, vai lá à tua morte

It’s four in the morning, Cohen, e nem sequer é end of december, bem podias ter esperado mais um pouco. Era indiferente morreres agora ou daqui a um mês mas daqui a um mês sempre teríamos tido mais um mês de esquecimento de que teríamos de recordar-te. São quatro da manhã, Cohen, e agora eu estou a escrever para ti, que eu sempre li. I'm writing you now just to see if you're better.

“O meu Dylan é o Cohen”, escrevi eu há dias numa parede, eu e mais um saco de gente, por causa de um prémio Nobel dado a um escritor de canções fenomenal que todos adoramos mas que nem todos amamos. Amor é contigo, sempre foi, nunca tiveste outra língua na tua língua que não fosse amor. São quatro da manhã, Cohen, aqui em Lisboa, and thanks for the trouble you took from her eyes.

Her, ela, usas tantos nomes para ela, afinal love calls you by your name, como ela, aquela, a Marianne, que conheceste na Ilha de Hidra quando ambos eram almost young e foste ter com ela porque ela chorava no mercado. Amaste-a e despediste-te dela há mais de quarenta anos - mas não lhe sobreviveste nem sequer quatro meses. Oh so long.

E Suzanne, essa mulher que me leva down to her place near the river e me alimenta de tea and oranges that came all away from China – e o rio responde-me que fui sempre o seu amante for you've touched her perfect body with your mind. (Sabes, escrevo no escuro, são quatro da manhã, Cohen, estou debaixo da mezzanine, lá em cima está a bed of snow, my love de cá de baixo here’s my lullaby. Sleep baby sleep, There’s a morning to come. The wind in the trees, They’re talking in tongues).

Foi essa a primeira música tua que eu ouvi, Suzanne, lembro-me bem, eu estava a encher a minha 59º flexão e a rádio tocava, sim, lembro-me tão bem, naquela altura pirata havia pardais que ainda não tinham almoçado. Mais tarde ouviria uma cover dessa música só para mim mas isso seria só depois de saber no teu aleluia que havia acordes secretos que David tocava e agradavam ao Senhor, Hallelujah.

getty

Só depois das letras das músicas eu leria as letras dos poemas, como os daquele livro que comprei lá em New York.

Wherever you move
I hear the sounds of closing wings
of falling wings.
I am speechless
because you have fallen beside me

Quatro da manhã, Cohen, as sisters of mercy are not departed or gone, elas estão à tua espera e este ano deve haver aí uma grande farra com o Bowie e com o Prince, let the heavens hear it que nós já aí vamos ter. Mas antes disso tenho tanto para escrever e tanto para ler só esta noite... The birds they sang at the break of day. Start again, I heard them say. Tanto escuro e a labareda de luz em cada palavra.

Vou ler até ser de manhã, my lady can sleep upon a handkerchief. Vou ler até ela chegar, I know she is coming, I know she will look, And that is the longing, And this is the book. Vou ler porque é uma forma de viver e de viver-te, antes de ser late december de um novo ano qualquer. Vá, vai lá à tua morte e obrigado por isto.

Escrevo-te esta carta como uma primeira pedra depois da última perda que é ires agora, não eram ainda quatro da manhã aqui em Lisboa, this could be my little book about love if I wrote it. Escrevo-te esta carta como tu escreveste aquela em Famous Blue Raincoat e na verdade as minhas frases em português são só intervalos de gratidão entre as tuas frases em inglês. O melhor é mesmo assinares tu isto:

Sincerely L Cohen