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O maior crime de sempre

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É mais que uma economia paralela, mais que uma órbita de negócios paralelos, é uma subespécie humana de fortunas giratórias, um submundo tão vasto, tão rico, tão tentacular e tão escabroso que as revelações que se seguem podem levar ao vómito coletivo. O Expresso inicia este domingo em Portugal a publicação dos “Panama Papers”, uma investigação jornalística global à maior fuga de informação de sempre sobre sociedades offshores. São milhões de registos financeiros secretos que mostram da mais simples habilidade legal à mais complexa rede de crime e corrupção, envolvendo chefes de Estado, banqueiros, criminosos, até gente famosa que se asila em paraísos fiscais.

A quantidade de informação original – mais de 11 milhões de documentos – é muito maior do que a Wikileaks. Ao longo do último ano, uma rede de jornalistas que agrega hoje mais de cem órgãos de comunicação de todo o mundo tem vindo a trabalhar em conjunto, para conseguir fazer de tantos fios dispersos uma meada. O Expresso é um dos parceiros desse consórcio internacional de jornalistas de investigação, que se deparou com uma montanha de documentos que esconde um vulcão de informações. O nome desse vulcão é segredo e lá dentro há uma festa particular.

A montanha é um esquema gigantesco de sociedades offshores, construído por uma indústria de bancos, empresas financeiras, sociedades de advogados e sociedades fiduciárias que vendem o segredo a quem pode pagar por ele. Gente conhecida, gente desconhecida, há mais de 120 políticos nesta investigação, chefes de Estado, grandes empresários, estrelas de cinema e do desporto, há burlões, traficantes de droga, organizações terroristas.

O maior crime é esconder o crime. Este é um labirinto inescrutável de ligações, sociedades obscuras ligadas a outras sociedades obscuras ligadas a outras sociedades obscuras ligadas a outras sociedades obscuras, numa volta ao mundo feita para despistar, criar incógnitos, esconder os beneficiários, perder o rasto. A investigação é dificílima por isso mesmo, porque a sofisticação do segredo é imensa. E por isso exige tempo, dinheiro e energia de quem o investiga, sejam os jornalistas, sejam as autoridades policiais. Em muitos casos não há ilegalidade, apenas aproveitamento dos buracos legais para pagar menos impostos. Noutros casos há corrupção, subornos, financiamento de atividades ilícitas, há crimes contra homens e crimes contra a humanidade. E o que em todos há é uma indústria de segredo, que é tão grande que toda a gente sabe que existe mas tão intestina que ninguém a vê. Como o núcleo do planeta Terra, ardente mas subterrâneo.

O pé de cabra abriu a porta de um cofre que escondia uma grande parte do mundo, que assenta no segredo que os jornalistas de investigação querem revelar. Nos próximos dias e ao longo dos próximos meses, o consórcio publicará milhares de notícias e artigos de investigação em todo o mundo. O Expresso fá-lo-á a partir deste domingo, durante os dias da próxima semana, no próximo sábado, durante muito tempo depois disso. Estamos a investigar também casos que envolvem Portugal, que no tempo certo noticiaremos. O tempo errado é o que vivemos hoje. O de incapacidade dos poderes legais capturarem os interesses políticos e económicos que, roubando para si, roubam as sociedades.