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Expresso

Museu Virtual Aristides de Sousa Mendes

equipa MVASM (www.expresso.pt)

Lisboa pareceu-me bem estranha!

Pouco antes da invasão alemã e da capitulação dos franceses, Joseph Dresner e sua família fogem de França. Aqui vos deixamos um excerto de uma das etapas dessa fuga. Oportunamente, outros excertos ser-vos-ão transcritos.

(...) A chegada a Portugal

(...) Quando chegamos à estação do Rossio já tinha escurecido. Ficamos no hotel Frankfurt que era numa transversal ao pé da rua Augusta. Não me lembro quanto tempo aí ficamos mas penso que cerca de duas semanas. Os meus pais estavam preocupados em conseguir as passagens para o Brasil. Não tinha, por isso, muito que fazer. A minha mãe deu-me alguns escudos e assim pude ir com o meu primo Jules explorar a velha cidade. Esta pareceu-me bem estranha.

Lembro-me dos eléctricos que tinham uma espécie de cestas à frente e atrás que impediam os transeuntes de ser atropelados, já que se fossem colhidos por um eléctrico cairiam na cesta e não se magoavam. Todos os carros eram ingleses, os táxis eram Austins velhinhos com modelos dos anos 20, com radiadores de latão. (...) As vezes, à tarde, íamos a um dos cafés da Avenida da Liberdade tomar sorvetes. O meu pai aconselhou-nos a ter cuidado com o que dizíamos, porque podia haver ali agentes alemães. E era verdade; muitas vezes ouvíamos alemão nos cafés, mas quem sabe se não eram apenas refugiados como nós?

Estava nessa altura, em Lisboa, a Exposição do Mundo Português. Fomos visita-la. (...) Na verdade não havia nada ali que me interessasse muito. Fizemos, como em Espanha, uma volta pela cidade de táxi. (...) O meu pai mandou-o levar-nos ao cais para vermos o nosso barco. Foi a primeira vez que ouvi o nome de Serpa Pinto.

Num outro dia a minha mãe levou-nos aos Grandes Armazéns do Chiado para nos comprar roupa apropriada para o Brasil, onde já era verão. Lembro-me que um dos vendedores, que falava francês nos deu bons conselhos: eu ainda usava calções, o que era habitual em França, mas ao que parece um bocado ridículo no Brasil e outras coisas como estas.

Finalmente chegou o dia em que fomos para bordo do Serpa Pinto. (...) Ficamos todos na ponte quando o navio saiu para o mar e lá ficamos até a terra desaparecer. Não senti quase nada, a verdade é que nessa altura eu ainda não sabia que se iriam passar mais de vinte anos até voltar a pisar a Europa. (...)

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