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Maghreb / Machrek

Sudão do Sul: Relato de um Português num mês de Guerra

Felipe de Araujo Ribeiro, em Juba

O dia de Natal começou da mesma forma que haviam começado os dias anteriores: às 5 da manhã são recebidos os primeiros relatórios de segurança da manhã enquanto se ouvem já alguns tiros de AK-47 um pouco por toda a cidade. Fazem-se as verificações das zonas mais sensíveis de Juba através dos contactos por rádio com as equipas colocadas em pontos estratégicos da cidade. Ainda antes das 6 horas, são estabelecidos os planos de distribuição de água e rações de combate para os militares da ONU e mobilizam-se as equipas e veículos para o efeito. Começava então o décimo dia de guerra civil no Sudão do Sul.

Na noite de 15 de Dezembro começara o conflicto. Os primeiros relatórios indicam uma revolta interna dentro do exército, tiroteio pesado num dos principais campos militares de Juba, e uma suposta tentativa dos militares revoltosos se apoderarem de um dos principais depósitos de armamento do Sudão do Sul. A situação na capital, ainda confusa nas primeiras horas, rapidamente evolui e alastra-se por toda a cidade, as linhas telefónicas são cortadas e durante quase três dias o tiroteio segue pesado e ininterrupto, e apenas militares se movem nas estradas, enquanto que grande parte da população, desesperada, procura proteger-se do caos que se instala em Juba. Só nas primeiras horas de conflicto, são vários os milhares de Sul-Sudaneses, maioritariamente da tribo Nuer, que procuram refúgio em campos da ONU ou em Igrejas.

O Presidente Salva Kiir, de etnia Dinka, a tribo maioritária no país, age com rapidez e, por volta das duas da tarde do dia 16, Segunda-feira, emite um comunicado responsabilizando Riek Machar, o ex-vice-presidente demitido meses antes, de instigar a revolta no seio do exército, de fomentar a guerra étnica entre as tribos Dinka e Nuer, e de tentar levar a cabo um golpe de estado. Declara ao mesmo tempo que Machar será detido imediatamente e que a situação estaria já sob o controlo do exército leal ao governo e retomar-se-ia rapidamente a normalidade em Juba. Nesse mesmo dia são detidos nove políticos influentes, acusados de conspiração contra o governo e tentativa de golpe de estado.

Correm rumores de que Machar estaria refugiado na base das Nações Unidas, mas estas negam os rumores. O mesmo acontece com a Embaixada dos Estados Unidos, que nega igualmente ter dado asilo ao ex-vice-presidente. Apesar de vários rumores que correm pelo país, a localização de Machar permanece desconhecida. O recolher obrigatório é imposto entre as seis da tarde e as seis da manhã, o exército percorre as ruas da cidade dando ordens para que os geradores sejam desligados e a capital fica isolada e sem comunicações.

Multiplicam-se os ataques em toda a cidade e a violência assume contornos étnicos cada vez mais evidentes, circulando relatórios de execuções sumárias de elementos da tribo Nuer, tendo sido saqueadas e destruídas algumas residências de figuras destacadas da política de oposição ao presidente Kiir. No início do terceiro dia, no entanto, a situação apresenta-se mais calma, e dá-se início a um extensivo processo de evacuação de expatriados.

Em menos de 72 horas partem do país a maioria dos estrangeiros ao serviço de organizações não-governamentais, o pessoal das embaixadas e das agências da União Europeia, os comerciantes, e também o pessoal não-essencial da ONU. O aeroporto, normalmente bastante desorganizado, torna-se caótico. Os vôos comerciais escasseiam, e muitos são os que procuram deixar o país de imediato. Governos de vários países decidem fretar aviões para evacuar os seus nacionais, e os raros bilhetes disponíveis para vôos comerciais atingem preços exorbitantes. Ao mesmo tempo aumenta o número de Sul Sudaneses que procuram deixar o país por estrada em direcção ao Uganda. Outros, particularmente aqueles que se sentem menos seguros ou com menos meios financeiros, procuram refúgio na ONU e nas Igrejas, estimando-se que tenham resultado mais de dez mil deslocados internos na capital em apenas 3 dias.

Juba torna-se rapidamente irreconhecível: lojas, restaurantes e hotéis estão fechados, o movimento é quase inexistente, e o ruído dos disparos torna-se parte do dia-a-dia, apenas interrompido pelo cantar dos pássaros. É uma experiência curiosa, quase hipnotizante - já o constatara em Kinshasa, em Kampala, em Bujumbura, em tempos de guerra - escutar os disparos de uma Kalashnikov, de uma Heckler&Koch, de uma Lee-Enfield, ao som da melodia de um estorninho, de um pardal, de um francolim.

Poucos dias depois de ter-se iniciado em Juba, o conflicto começa a estender-se a outros pontos do país, começando por Bor, capital do estado de Jonglei, cerca de 200 quilómetros a Norte de Juba. Naquela cidade, onde a comunidade Nuer existe em maior número do que na capital, foram necessários poucos dias de luta para que se declarasse a cidade nas mãos de forças opostas ao governo. Começava então a assumir-se que estávamos perante um cenário de guerra civil, se não efectivo, pelo menos em potência. Surgem por esta altura relatórios de situações semelhantes às verificadas em Juba, com relatos de vários ataques de motivação étnica direccionados à população Dinka, como vingança pelos ataques aos Nuer em Juba.

A situação normalizava-se na capital mas, seguindo para Norte, onde a tribo Nuer ganha preponderância demográfica, foi sem surpresa que começaram a verificar-se focos de conflicto nos estados de Upper Nile e Unity, territórios de fronteira com o Sudão e ricos em reservas de petróleo. Com efeito, as suas capitais caem nas mãos dos rebeldes em poucas horas de combate, e sem que se tenha observado significativa resistência por parte do exército leal ao governo. O país aparece assim dividido étnica e geograficamente, entre uma zona de influência Dinka, e uma zona de influência Nuer.

A posição das Nações Unidas permanece de neutralidade durante todo o conflicto, emitindo comunicados pouco incisivos apelando à paz e ao diálogo entre as partes, e pedindo o cessar-fogo imediato e incondicional. Recusa-se, no entanto, a tomar partido e assiste impotente a um ataque à sua base em Akobo, no estado de Jonglei, onde são mortos 2 soldados do contingente Indiano, e um terceiro é ferido gravemente. A Missão da ONU no Sudão do Sul (UNMISS, na sigla em Inglês) assume expressamente a disponibilidade de recolher refugiados nos seus campos e de mover esforços no sentido de garantir-lhes segurança e subsistência, agindo em conjunto com ONGs dedicadas a esse propósito. Repetem-se, no entanto, ataques e invasões aos campos de refugiados e, mais uma vez, multiplicam-se os relatórios de execuções sumárias dentro dos mesmos campos. A ONU mostra-se assim incapaz de garantir a segurança mesmo dentro dos seus campos, apesar de contar com reforços militares e armamento moderno.

Também os Estados Unidos mostraram algumas dificuldades em garantir a segurança dos seus nacionais. Numa tentativa de evacuar o seu pessoal da cidade de Bor, assistidos por militares das suas forças especiais, depararam-se com um ambiente hostil, tendo o seu avião de evacuação sido alvejado e alguns dos seus marines feridos durante o processo de resgate.

Passado o pânico inicial e a desorientação provocada por excesso de rumores e quase total ausência de informação confirmada, começam analistas a tentar desenhar as origens do conflicto e a tentar compreender os objectivos e jogos de poder por detrás das partes envolvidas, nomeadamente Salva Kiir e Riek Machar. Ambas as partes comunicaram desde o início a sua versão dos acontecimentos e jamais cederam a compromissos. Kiir afirma que o ex-vice-presidente é responsável por uma tentativa de golpe de estado, e que por isso terá de ser detido e julgado em sede própria. Machar defende-se dizendo que toda a situação foi fabricada pelo governo com o intuito de enfraquecer e derrubar as forças de oposição interna que tinham vindo a ganhar terreno político nos últimos meses. Este insiste que a acção do presidente é criminosa, e que não aceitará quaisquer negociações antes de ver satisfeita a condição de que Kiir seja deposto da presidência, para depois ser julgado por crimes de guerra.

A guerra civil prevalece durante semanas, e entre ofensivas dos rebeldes e contra-ofensivas do governo, grandes cidades como Malakal, Bor e Bentiu mudam de mãos sucessivamente. O número de mortos, feridos e deslocados continua a aumentar de dia para dia, e o governo acaba por declarar o estado de emergência em alguns dos principais estados do país já nos primeiros dias de Janeiro. Só a 5 de Janeiro, mais de 20 dias após o início do conflicto, aceitam as partes reunir-se na capital da Etiópia para negociar a paz. As conversações não começam da melhor forma, e perdem-se alguns dias apenas para definir a agenda das discussões. Ambas as partes insistem nas reivindicações: o governo requer dos rebeldes a admissão de uma tentativa de golpe de estado; os rebeldes, por outro lado, estabelece como condição primordial a libertação dos presos políticos detidos sem acusação formal desde 16 de Dezembro. Nenhuma das partes cede.

Longe da Etiópia e do hotel de 5 estrelas onde decorrem as negociações segue a guerra no Sudão do Sul, enquanto aumenta o descontentamento da população em relação aos responsáveis pela crise que se abateu sobre o país. Tanto o governo como os rebeldes continuam os combates, e torna-se evidente que ambos procuram ganhar terreno no país de forma a garantir maior poder de negociação em Adis Abeba. Não obstante o recente acordo assinado entre o governo de Juba e Museveni, presidente do Uganda, para a intervenção militar do Uganda em apoio ao exército Sul-Sudanês, o medir de forças mantém-se equilibrado, e as negociações permanecem num impasse.

Como pano de fundo, está sempre presente a questão do petróleo. O Sudão do Sul possui vastas reservas de petróleo, pelo que são várias as potências estrangeiras com interesse directo no resultado deste conflicto. Começando pelo Uganda, o mais próximo parceiro estratégico do governo de Juba, este não tem qualquer interesse em ver o actual governo derrubado, e afectada assim a sua posição privilegiada em relação à exploração de petróleo. Também o Sudão, apesar de eterno adversário de Salva Kiir, contra quem combateu duramente durante décadas que precederam a secessão do Sudão do Sul em 2011, construíra em 2013 uma relação estável de cooperação com Juba. A manutenção das relações entre Cartum e Juba é aliás fundamental para os dois países, já que ambos dependem quase exclusivamente da exploração do petróleo para manter a sua economia. O Sudão do Sul, apesar de possuir no seu território a quase totalidade dos poços de petróleo, está dependente dos oleodutos do Sudão para o exportar. A posição de Cartum, no entanto, não está tão dependente quanto à de Kampala em relação à manutenção do actual governo no poder, já que um pré-acordo com as forças rebeldes é um cenário perfeitamente plausível. Apesar dos possíveis acordos pré-estabelecidos, Bashir, o presidente do Sudão, tem sabido manter-se essencialmente neutro durante a crise, salvaguardando a relação política com Salva Kiir em termos puramente institucionais.

Também as grandes potências estrangeiras estão na espectativa, provavelmente a agir nos bastidores de forma a garantir a oportunidade de trabalhar com qualquer que seja o governo que venha a emergir vitorioso no fim do conflicto. É provavelmente essa a razão que tem levado a que, de Washington a Pequim, passando inevitavelmente por Moscovo, quase todos tenham preferido manter o silêncio em relação à violência que reina no Sudão do Sul. Os apelos a um cessar-fogo multiplicam-se, mas não deixam de assumir uma relevância quase nula no desenrolar do conflicto.

Hoje, passado um mês sobre o seu início, estima-se que a guerra civil no Sudão do Sul tenha já produzido mais de 10,000 mortos e dezenas de milhar de deslocados internos, 20,000 dos quais se encontram refugiados dentro de campos das Nações Unidas.

 

Felipe de Araujo Ribeiro

16 de Janeiro de 2014

Juba, Sudão do Sul