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Maghreb / Machrek

Egipto: História duma Tragédia anunciada

Raúl M. Braga Pires, em Rabat

Os acontecimentos de quarta-feira 14.08 no Egipto, demonstram tão sómente que a Irmandade Muçulmana (IM) e os militares/polícias estão bem um para o outro.

IRMANDADE MUÇULMANA

Ao longo do acampamento de 48 dias em Nasr City, a IM demonstrou, por muita razão que tenha, já que M. Morsi e o Partido Liberdade e Justiça (PLJ) foram legitimamente eleitos, não estar à altura de uma organização política responsável e de querer fazer parte da solução e não do problema, ao rejeitar qualquer tipo de saída negociada para o impasse criado pela deposição do Presidente e pelas suas próprias exigências no regresso deste, como se o tempo pudesse voltar para trás. Mas também não podiam estar à altura do exigido, já que a IM trata-se duma Confraria religiosa, com um ideário muito próprio e uma agenda muito mais voltada para o que deve ser e não para o que na realidade é. É por isso que qualquer crente, independentemente da religião, acredita no Paraíso, para compensar no Além aquilo que deveria ser/ter/acontecer na Terra. Uma projecção/transferência, em psicologia clínica.

A IM tem agora aquilo que realmente procurou ao longo do último mês com a sua posição intransigente. Mártires! Argumento que lhe permite tentar inverter a perda de apoios e adesões que se tem verificado desde que tomou o Poder de forma democrática. Precisamente, este detalhe da chegada ao Poder, também deve ser analisado através dos olhos e do ideário islamista, para melhor se perceber porque é que o último ano lhes correu mal.

A Cartilha islamista (e não do Islão e/ou do Muçulmano, se é que me faço entender. O islamista é aquele que tenta levar à prática a teoria doutrinária dos textos) refere que a conquista do Poder só poderá ser efectuada exclusivamente através da violência. Ora Morsi e o PLJ chegaram lá de forma ínvia, de pernas para o ar, de costas, duma forma na qual os próprios islamistas não acreditam, ou seja, democraticamente! E porque é que o Poder tem que ser conquistado exclusivamente através da violência? Para poderem impôr o seu ideário sem qualquer tipo de oposição, ou aquela que eventualmente existir, ser de imediato eliminada. Simples. Na linha da mesma simplicidade nihilista do discurso e das acções dos Irmãos ao longo do último ano. "Se o Shafiq ganhar (adversário de Morsi na 2ª volta), incendiamos o país", "se Morsi não regressar à Presidência, incendiamos o país", para além de terem imposto uma Constituição anacrónica, baseada na Shariat, em suma fascista. Morsi inclusivamente assinou um decreto que lhe dava mais poderes que o próprio Mubarak alguma vez teve. Há que dizê-lo com tranquilidade, como o outro!

Em resumo, há um problema de linguagem, de códigos, de valores, de referências, de paradigma. E o actual momento volta a favorecer a IM, já que a remete para o terreno onde se sentem mais à vontade. A clandestinidade em que vivem há quase um século e que lhes vai permitir a condução duma resistência contínua num conflito de baixa intensidade, na qual replicarão as acções dos últimos dias, incendiando igrejas, escolas, edifícios estatais, assaltando esquadras de polícia, roubando armas, atacando polícias e militares e, muita atenção, muito provavelmente levando a cabo no futuro próximo atentados à bomba em referênciais turísticos. Não para matar turistas, já que estes deixaram de aparecer, mas para destruir estátuas e templos, simbolos de Shirq, idolatria. Por isso mesmo os taliban no Afeganistão destruiram as estátuas dos Budas de Bamiyan e os Irmãos, já na passada quarta-feira atacaram a Biblioteca de Alexandria! A desgraça do Islão, religião que deu ciência e saber ao Mundo, está em gerações e gerações de ignorantes que as suas lideranças políticas têm criado ao longo dos últimos 50 anos.

MILITARES/POLÍCIA

Quanto aos militares/polícia, por seu lado, precisam que estes ignorantes procedam desta forma cega, para poderem manter também os níveis de aprovação que têm de parte significativa da população, como é o caso actual e, continuarem com a rédea cada vez mais curta face aos islamistas e, já agora também, manterem uma completa imunidade judicial e criminal, face à sua actuação.

O fim dos acampamentos era inevitável e já se tinha percebido que se aguardava pelo fim do Ramadão para se proceder à acção e que ao mesmo tempo se tentava uma solução negociada. No entanto, ambos os lados, Irmandade e militares foram dizendo face às pressões internacionais que, "o problema é egípcio e a solução deverá ser egípcia e entre egípcios", o que significa dizer, para bom entendedor, que o resultado seria sempre violência, já que é isso que interessa a ambas as partes, pelo que já foi dito anteriormente.

A forma como as autoridades actuaram na quarta-feira e em duas outras ocasiões ao longo dos 48 dias do acampamento de Nasr City, demonstra também algo de profundo nas mesmas. Continua a não haver uma escola, uma doutrina de prevenção, de gestão e de controlo de multidões. Os militares e a polícia estão treinados para "varrerem" e para atirarem a matar, continuando a pontapear quem já se encontra indefeso no chão, a furar cabeças e gargantas com balas reais e a sufucarem hordas em fuga, não permitindo escapatórias, apesar de dizerem que o fazem.

E volta a colocar-se a dúvida. Com o regresso ao Estado de Emergência, ou seja, ao status quo ante da queda de Mubarak e com a nomeação na terça-feira de 18 novos Governadores provinciais, dos quais metade são Generais na Reserva, será o roteiro do processo democrático retomado, ou estaremos confrontados com mais um déjà vu e o início oficial duma nova Era faraónica, desta feita liderada por Al-Sisi?

Continuo a acreditar que os militares não farão a caça ao laico/liberal que agora os apoiam, após terem a caça ao islamista controlada. O momento é histórico, o qual também permite a imposição da reforma do Islão Político e a apresentação duma Constituição que poderá servir de modelo para toda a região. Afinal, trata-se do maior país árabe do Mundo e um efeito de contágio é possível, para o melhor (Constituição modelo) e para o pior (réplica dos acontecimentos na Tunísia, por exemplo).

SOCIEDADE CIVIL

Os "rebeldes" do Tamarud, já apoiaram publicamente a acção das autoridades e começaram a organizar-se em milícias populares de bairro, para fazerem face à ameaça islamista. Não me parece que o Egipto venha a viver um cenário à argelina, sobretudo pela desproporção de forças e pelo poder tentacular e prestígio que os militares têm nos mais variados sectores da sociedade egípcia. Vejo antes o problema na grave crise de liderança política em que o país se encontra mergulhado. Todos falharam e quando mais se precisa de figuras de referência e de prestígio internacional como Mohamed El-Baradei, é quando o Nobel da Paz recua, numa clara gestão da sua imagem e carreira política.

Não havia necessidade Habibi!

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

 

A "edição papel" do Expresso de amanhã, 17.08, contará com um pequeno artigo de minha autoria, sobre as eleições no Mali.

 

Aceda AQUI à Parte II da Trilogia "António Araújo - Um Português em Arguim", no Blogue Parlamento Global.