Siga-nos

Perfil

Expresso

Maghreb / Machrek

A inocência dos muçulmanos

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)

Numa primeira leitura factual sobre os recentes eventos, a propósito do filme cujo nome intitula a presente análise, diria que tudo leva a crer que se trata duma muito provável colaboração entre a extrema-direita americana e a extrema-direita copta egípcia. O filme encontra-se disponivel no youtube, desde Março deste ano e só chega ao conhecimento do grande público agora, após ter sido dobrado para árabe e publicitado junto dos sectores islâmicos mais radicais no Egipto, precisamente por um cristão copta, americano-egípcio. Relativamente a dobragens, as actrizes do mesmo que decidiram dar a cara após a polémica, disseram que os diálogos nunca se referiram a nenhum Muhammad, mas sim a um Jorge, o "Guerreiro do Deserto", titulo do projecto para o qual tinham sido contratadas. Mais tarde, na edição/montagem, as referências a Jorge, foram dobradas por Muhammad. Uma encomenda "11 setembrista", com contornos de caso de polícia, já que há pessoas que agiram de boa fé e cujo ludíbrio, poderá ter colocado as próprias vidas em risco.

Quanto às reacções, foram as menos islâmicas possíveis, já que o próprio Profeta também em vida foi injuriado, chamado de feiticeiro, mágico e poeta. Aquando dos tempos de Meca, ainda antes da emigração para Medina, durante as orações no recinto da Ka'bah (Cubo), não raras vezes lhe foram arremessados excrementos d'animais e outras substâncias putrefactas, sem nunca ter havido como resposta qualquer acto violento. À imagem de Cristo, neste capítulo, Muhammad também deu a outra face, seguindo posteriormente caminho com a segurança própria dos Mensageiros.

Outro detalhe, é o impacto que as imagens têm no Ocidente, já que dão a ideia de que todos os muçulmanos, ou pelo menos os dos países retratados, estão irados por causa do filme. Não estou no Paquistão, no Egipto ou noutro local qualquer, mas certamente que aquilo que se passa em Marrocos é também replicado noutros países islâmicos. E na verdade, continuo cada vez mais a insistir na imagem da "maioria silenciosa", a mesma que saiu à rua durante a "Primavera Árabe", que já há muito ganhou pele de crocodilo e ignora este tipo de provocação. Fica indignado, com um aperto no coração, é do seu Profeta que se trata, mas acha que não é com violência que o assunto se resolve, considerando aliás, ser essa a pior forma. Amor com amor se paga e, na mesma moeda, pelo que se deve louvar a iniciativa do Emirato do Qatar, o qual destinou 450 milhões de dólares para a realização duma triologia sobre a vida do Profeta Muhammad, que a Paz e as Bençãos de Deus estejam com Ele e com todos Nós também, já agora.

RAZÕES PARA A REACÇÃO DOS MUÇULMANOS

As razões emocionais são simples d'explicar. O sonho de qualquer muçulmano é morrer em Meca, de preferência logo após ter terminado o Hajj, a Grande Peregrinação. É Jannati (aquele que ganhou o Paraíso) garantido. Ora como este sonho não está ao alcance de todos, sendo a morte a certeza mais incerta, resta, sobretudo aos radicais literalistas, morrer como shahid, mártir, para ter direito a uma entrada directa e garantida neste outro "Clube dos Puros". Defender a Honra do Profeta, regra geral por forma violenta, aparece assim aos olhos dos mesmos radicais, não apenas como uma obrigação, mas também como uma oportunidade de morte redentora. E porquê redentora? Porque todo o indivíduo tem noção dos seus próprios pecados e, no caso das diversas comunidades/sociedades islâmicas, profundamente vitorianas, onde imperam as virtudes públicas e os vícios privados, o pecado abunda não só na prática, mas também na retórica. "Não fizeste, mas pensaste!" Há que se libertar deste peso, o que geralmente acontece de forma escatológica e violenta. Defender a Honra do Profeta, para aqueles que não encontram o martírio durante os protestos, também os faz sentirem-se lavados dos pecados cometidos, à semelhança do que acontece após cada Ramadão e Hajj cumpridos na íntegra. A função de ambos estes Pilares do Islão, é precisamente essa. Ou seja, permitir a purificação, a renovação, no longo processo de rectificação que é a vida, na senda do Divino.

Do ponto de vista político há várias razões para o que está a acontecer, sendo que gostaria de dar primazia a uma, que me parece crucial. Os Estados Unidos da América, desde a II Guerra Mundial, por via da "Primavera Árabe", nunca tinham sido tão populares junto das populações árabes e berbéres, sobretudo no Norte d'África, mas também em certas partes do Médio Oriente. A prová-lo, estão os actuais acontecimentos na Líbia, sobretudo em Benghazi, onde o Exército e a sociedade civil estão a efectuar uma limpeza nas milícias não oficiais. Os líbios foram os primeiros a levantar os braços após a morte do Embaixador Stevens e a dizer "É pá, isto não somos nós!"

De forma clara, era necessário encontrar maneira d'estancar esta subida de popularidade americana por terras do Islão, bem como reabilitar líderes e grupos em descrédito há já quase 2 anos. Por exemplo Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah (Partido de Deus), que já não saía da toca desde Dezembro do ano passado, efectuou uma retumbante manifestação em Beirute a 17 de Setembro, menos de 24h após o final da visita do Papa Bento XVI à mesma cidade, o qual juntou 200 mil católicos numa Missa Campal. Curioso, não é?

Outro exemplo prático deste móbil para a reabilitação de causas esquecidas, foi a manifestação organizada na noite da passada quinta-feira, 20, pelo Movimento do 20 de Fevereiro (M20), em Tânger, Marrocos. Nova curiosidade e incongruência ideológica. Um movimento cuja raíz é laica, socialista e mesmo repúblicana, a defender a Honra do Profeta, sendo que foi o único evento relacionado com protestos registado em Marrocos durante esse dia de Jummah (pôr-do-sol de quinta-feira até ao pôr-do-sol de sexta-feira).

A "PROVOCAÇÃO" DO OCIDENTE

O que é referido como "Liberdade d'Expressão", caso do filme, das caricaturas do francês Charlie Hebdo, ou da revista alemã Titanic, que já disse que publicará novas caricaturas no número d'Outubro, é não só interpretado como provocação, mas também como iconoclastia. É a tentativa da destruição dum simbolo, duma tradição, duma narrativa. Ora é preciso dizer que na raíz deste desentendimento, estão linguagens e códigos diferentes. Exemplo prosaico muito prático, é a forma como a comunicação social islâmica (e restante população) se refere ao Profeta. As "Judites de Sousa" e os "Mários Crespo" destas latitudes referem-se-lhe durante os serviços noticiosos televisivos e radiofónicos, chamando-o de "Querido Profeta", ou de "nosso Querido Profeta", o que reforça a certeza sobre o imaculado do mesmo, com o peso adicional da crença de que tudo o que passa na TV, é verdade.

O Ocidente encontra-se num patamar diferente, não melhor nem pior, mas no patamar "dos pregos Alcobia, que têm 2 mil anos de garantia", talvez por interpretar que o divertimento e o bem-estar são o desígnio supremo, não da Humanidade, mas do Ser Humano. Pessoalmente, aquando duma entrevista a Yacub Sibindy, líder do Partido Independente de Moçambique (partido islâmico), não percebi a quem se referia quando insistentemente dizia que JC fez isto e JC disse aquilo. Perante a dúvida levantada respondeu "Joaquim Chissano, claro!" Para mim, JC sempre foi Jesus Christ Superstar! Blasfémia criar um acrónimo, ou um diminutivo para o Profeta, já para não falar numa alcunha, por exemplo.

Esta constatação sobre as diferentes linguagens e códigos, também me tem vindo a fazer reflectir sobre os conceitos, já que ambos os lados da barricada insistem em falar de "Tolerância". Ora tolerância nada mais é do que arrogância. Sigam o raciocínio: Eu sou tão bom, que até tolero a vossa presença. Ou, vocês são tão bons, que até toleram ler o que eu escrevo. Há uma necessidade imperiosa de fazer passar esta mensagem e de substituir o "Discurso da Tolerância", pelo "Discurso da Aceitação". Eu não tolero. Eu aceito, ou não aceito. Mas para aceitar, também tenho que conhecer e a  grande conclusão a que eu tenho chegado nos últimos anos, é que o desconhecimento que eles têm sobre nós, é equivalente ao desconhecimento que nós temos sobre eles.

Caso não se perceba e não se aceitem os factos desta forma, por ambas as partes, estaremos inevitavelmente a traçar o caminho do Choque Civilizacional. Pessoallmente, acho que há muito se percebeu e que há muito não se aceitou!

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia