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Expresso

Keynesiano, graças a Deus

O dr. Miguel Macedo está benzido

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

O dr. Miguel Macedo está benzido. Só pode. Ardem 96 mil campos de futebol de floresta e a credibilidade do dr. Macedo nem estremece. Morrem oito bombeiros e a reputação do dr. Macedo mantêm-se firme como um rochedo. Há razões para colocar dúvidas sobre a forma como o país se preparou para enfrentar os fogos estivais e a competência do dr. Macedo nem um diamante a consegue riscar. Constata-se que em Espanha não se ouviu falar de fogos durante todo este Verão e a comparação não produz a fissura de um milímetro na reputação do dr. Macedo.

É claro que o dr. Macedo tem o bom senso, o estilo ponderado e a voz grave e bem articulada que os cidadãos consideram indispensável num político sério. Mas isso só não chega. Por muito menos do que aquilo que aconteceu neste Verão foram vilipendiados, humilhados, apedrejados outros ministros da Administração Interna, alguns dos quais tombaram devido a essas razões.

Houve mesmo um ministro das Obras Públicas que se demitiu por ter caído uma ponte em Entre-os-Rios, considerando que a responsabilidade política  (embora não técnica) pelo grave acidente, que custou várias vidas humanas, era sua. 

Com o dr. Macedo nada disto acontece. É natural o país arder. É natural morrerem bombeiros. É natural esta inevitabilidade. É natural que ninguém cumpra as leis que previnem ou diminuem os fogos. É natural que tenham acabado os vigilantes florestais. É natural que este ano não tenha havido dinheiro para presos de delito comum limparem as matas. Tudo é natural.

Por isso, também é natural que o dr. Macedo continue a ser um dos políticos que a opinião pública mais considera. E então agora que resolveu dar um murro na mesa e dizer que se vai pôr em prática um conjunto de acções para acabar com este flagelo que todos os anos assola o país, o dr. Macedo vai subir aos píncaros da popularidade.

Por tudo isto, é fácil concluir que o dr. Macedo é uma águia da política. E estando benzido voará sempre mais e mais alto - acima de qualquer fogo que dizime mais uns campos de futebol de floresta ou que mate mais alguns bombeiros.