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Expresso

Keynesiano, graças a Deus

Belmiro e os trabalhadores alemães

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Belmiro de Azevedo é seguramente dos melhores empresários não financeiros do pós-1974. O grupo Sonae, que fundou, foi uma escola para dezenas de gestores, alguns dos quais criaram depois as suas próprias empresas, e é um dos maiores empregadores do país.

Só pode ter sido, portanto, por manifesta infelicidade que Belmiro veio agora dizer que os trabalhadores portugueses produzem um terço dos trabalhadores alemães - deixando entender que a culpa é dos primeiros.

Belmiro sabe, melhor que ninguém, que a produtividade depende de muitos factores: da organização das empresas, da liderança, da aposta na formação, das condições de trabalho e, já agora, do tipo de bens que produzem.

O preço por hora de quem trabalha numa fábrica de conservas ou de quem trabalha na BMW é seguramente muito desfavorável para o primeiro trabalhador - embora ele possa trabalhar mais tempo e melhor que o segundo. E porquê? Porque, como é óbvio, o bem final produzido é muito mais valorizado no caso do segundo trabalhador que no primeiro.

Só que não são os trabalhadores que decidem que bens devem produzir. São os empresários, são os investidores. E se constatarmos que na última década em Portugal, o investimento caiu em sete, percebemos que quem mais tem contribuído para a baixa produtividade da economia portuguesa são... os empresários.

Além do mais, as PME, que representam cerca de 99% do tecido produtivo português, são obviamente menos produtivas que as grandes empresas e as multinacionais, que apresentam grandes ganhos pela escala a que laboram. Ora também não são os trabalhadores que se opõem ao crescimento das empresas, quer por via orgânica, quer por via de fusões e aquisições.

Finalmente, Belmiro sabe que empresas multinacionais que se encontram em Portugal, trabalhando esmagadoramente com portugueses, são das mais produtivas dos grupos onde se inserem (vidé os casos da Autoeuropa ou da Siemens ou da Nokia Siemens Networks). E sabe também que os trabalhadores do grupo Sonae devem ser altamente produtivos, porque senão ele, Belmiro, não seria um dos homens mais ricos de Portugal.

Há muitas razões para a baixa produtividade da economia portuguesa. Mas as principais não têm a ver com os trabalhadores, ao contrário do que Belmiro de Azevedo disse. Mas como uma inverdade, muitas vezes repetida, passa a verdade, é bom que se desmonte a muito papagueada inverdade.