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Geoenergia

O Grande Jogo do petróleo grego

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Ruben Eiras

A epopeia do recém-descoberto petróleo grego continua a redesenhar os equilíbrios geopolíticos do Mediterrâneo, com o surgimento em força dos EUA. E também da Rússia.

Com efeito, de acordo com a insuspeita United States Geological Survey, a Grécia é o país da UE e do Euro com o maior potencial prospetivo de exploração de petróleo, com cerca de 22 mil milhões de barris no Mar Jónico e 4 mil milhões de barris no Mar Egeu.Por comparação, o poço Lula no Brasil (uma das maiores descobertas da última década) tem cerca de 8 mil milhões de barris.

Segundo a Reuters, deram entrada recentemente na Grécia cerca de 8 pedidos de licença de exploração

Mas os hidrocarbonetos gregos também existem em outras geografias geopoliticamente complexas. Em Maio último, a empresa petrolífera americana Noble Energy anunciou a descoberta de uma vasta reserva de gás natural ao largo da costa do Chipre grego. Só que este reservatório situa-se numa Zona Económica Exclusiva de proclamação unilateral por parte da Grécia.

A nova importância geoestratégica da Grécia

Porque haveria uma empresa americana expor-se a um risco geopolítico desta natureza? Porque para além do óbvio prémio do ouro negro, os EUA querem afirmar-se como os árbitros da repartição da vasta riqueza petrolífera entre a Grécia e a Turquia, e de permeio, mitigar os intentos russos de influência no Mediterrâneo (através da aquisição de portos gregos), o qual se está a tornar num elo vital do corredor energético eurasiático a sul.

Neste contexto, não podemos esquecer as descobertas de enormes reservas de gás natural no off-shore de Israel e do Líbano, com outro imbróglio de disputas territoriais do solo marinho pelo meio.

A Grécia encaixa-se neste "puzzle" geopolítico com uma dupla importância estratégica: não só como detentora de vastas reservas de petróleo e gás, mas também como a principal porta de entrada de recursos energéticos, a sul, para o mercado europeu.

Face à atitude da UE e da Alemanha (mais preocupados em destruir a economia grega), os EUA estão a preencher o vazio político, tentando "costurar" um acordo entre a Grécia e a Turquia sobre as fronteiras da plataforma continental submarina.

Uma vez conseguido esse objetivo, não só as empresas americanas de petróleo e gás acedem a uma porta de entrada privilegiada nos dois países, como ainda os EUA se assumem como o fiel da balança na questão cipriota. Não será por acaso que Richard Morningstar, o responsável pela Política Energética Eurasiática dos EUA, foi tão enfático sobre os direitos de exploração do Chipre numa recente conferência em Atenas promovida pela revista The Economist:

"As to Cyprus, as we have repeatedly said, the United States recognizes Cyprus' right to drill in its offshore zone. We also believe American companies bring unparalleled world-class experience in offshore exploration, and we support their bids to do work in this region, as we do in other regions. As we have also said, we believe that any potential revenue from future oil and gas resources in Cyprus should be equitably shared between both communities. Our key message to both the Republic of Cyprus and Turkey reflects our long-standing policy, which is to support the Cypriot-led efforts under UN auspices to reunify the island into a bizonal, bicommunal federation and encouraging the two sides to come to a peaceful settlement - this issue could help us get there. This would allow all of Cyprus and other countries to share in the benefits of the Eastern Mediterranean".

Rússia vai a jogo no gás 

E não podemos esquecer que EUA, Grécia e Turquia são membros da NATO. Os EUA com esta aproximação económica também poderão estar a procurar uma vantagem militar, por exemplo, com a criação de uma base em território grego. Ficam perto de Israel, mitigando simultaneamente a influência russa na região: a Gazprom já manifestou intento em controlar alguns portos helénicos, bem como está prestes a apresentar uma proposta para a aquisição de uma das maiores empresas de gás gregas.

É o Grande Jogo em curso na geopolítica da energia no Mediterrâneo.

 

P.S. - Este caso do petróleo e gás grego/israelita/turco traz a seguinte lição para Portugal:

O país tem de conseguir investir muito mais no conhecimento da sua geologia para saber com precisão que recursos realmente existem, sobre no solo marinho. Atualmente, o avanço tecnológico eleva o potencial de resultados positivos. A extensão da Plataforma Continental submarina e o desenvolvimento de capacidades tecnológicas endógenas para a sua exploração não são questões menores: são de suprema importância estratégica para o futuro de Portugal, pois desbravam potenciais novas fontes de recursos geradoras de riqueza sustentável. Grande parte da prosperidade económica futura joga-se na exploração dos recursos localizados em solo marinho.