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Do outro mundo

Quando uma mulher é violada, o corpo bloqueia a gravidez, diz congressista americano

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Luis M. Faria

O congressista Todd Akin, representante do Missouri na Câmara dos Representantes norte-americana, é um ídolo do movimento conservador que dá pelo nome de Tea Party. Talvez por isso - e por a política americana estar cada vez mais extremada - sentiu-se à vontade para debitar uma enorme asneira que deve ser o género de absurdo no qual outras pessoas acreditam sem o admitirem.

Numa entrevista do passado domingo, quando lhe perguntaram se o aborto devia ser proibido mesmo a gravidez resulta de violação, Akin respondeu: "Parece-me, pelo que ouço dos médicos, que isso é bastante raro. Se é uma violação legítima, o corpo feminino tem maneira de fechar a coisa toda. Mas vamos supor que isso não funciona, ou qualquer coisa. Acho que deve haver algum castigo, mas do violador, não atacando a criança".

Logo para começar, a expressão 'violação legítima' é problemática. O congressista queria aparentemente fazer uma distinção entre violações reais e outras que não o são. Sem dúvida, há casos de mulheres confusas ou mentirosas. Mas que seja isso a primeira ideia que vem à cabeça do congressista quando se fala de violação, enfim... Na hipótese de o Missouri ter uma percentagem de eleitoras semelhante à dos outros estados, as ambições de Akin - ele candidata-se agora ao Senado - podem ter ficado seriamente em risco.

Pior, no entanto, é a sua teoria sobre as faculdades do corpo para bloquear a gravidez. Está mais ou menos ao nível do que em certos países de África se crê sobre a SIDA - dormir com uma virgem cura a doença, etc. Por muito respeitáveis que sejam as crenças espirituais, dos africanos ou dos americanos, convém não aplicar directamente alguns dos seus corolários mais perigosos. Tais como estes.

Sentindo o perigo (de outro género), Mitt Romney e Paul Ryan demarcaram-se imediatamente de Akin. Outros importantes apoiantes dele fizeram o mesmo. E o congressista teve mesmo de reconhecer que havia partes infelizes na sua declaração. Não referiu foi quais. Quando expressamente instado a concretizar, limitou-se a remeter para o que já tinha dito. E mais não explicou. Deve ser o corpo a defender-se. Ou será a cabeça?