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Expresso

Do outro mundo

Professora leva com porta e requer hospital. É bom que se habituem, diz um responsável

Luis M. Faria

Uma história que, infelizmente, nem sequer parece ficção. Algures durante uma semana como outras (que podia ter sido a semana passada) numa escola de um subúrbio de Lisboa cujo nome não me vem à cabeça (e podia aliás ter sido outro) um aluno estava a provocar agressivamente dois colegas. Eles respondiam-lhe, e não havia maneira de a aula poder começar.

A professora tentou acalmá-los. Como não obedeceram, chamou duas funcionárias e pediu-lhes que levassem o provocador para a sala de estudo cumprir uma tarefa - procedimento regulamentar, segundo consta. O provocador recusou a ordem. Elas puxaram, ele resistiu, o impasse durou algum tempo. Por fim, as funcionárias disseram que iam chamar o conselho directivo.

Nessa altura o aluno levantou-se e, em tom desafiador, começou a andar vagarosamente para a saída,  distribuindo pequenos toques à sua passagem. A professora foi na mesma direção, para fechar a porta. Aí ele olhou-a com raiva, pôs o pé a travar a porta, e disse que ela nunca devia ter saído do hospital.

Conselho directivo demorou a aparecer 

A injúria e o tom assustaram a professora. que se defendeu como podia e fechou a porta, à qual o aluno, já fora de si, começou a dar pontapés. Ao terceiro, conseguiu abri-la, com tal força que acertou na professora. Ela caiu no chão, ficando a sangrar copiosamente da cara enquanto os alunos se levantavam gritando - e uma ou outra chorando.

As funcionárias foram chamar o conselho directivo, que não apareceu logo. Professores indignados reportariam depois o primeiro comentário ouvido a um responsável da escola. Na mesma altura em que os bombeiros assistiam a professora ferida antes de a levarem para o hospital, esse responsável terá dito em tom sentencioso, referindo-se aos professores: É bom que se habituem a estes comportamentos hoje em dia.

Currículo (demasiado) alternativo

A mensagem implícita, segundo quem ouviu, era que aquilo (a violência) acontecia aos docentes que não usavam os métodos pedagógicos adequados para lidar com turmas de 'curriculo alternativo' ou onde existem alunos que por qualquer motivo têm problemas. Quem precisava de ser educado, concluía-se, eram os professores.

Se eles não se portam bem - se não aplicam técnicas pedagógicas correctas, modernas - ficam sujeitos ao castigo físico. Este velho método educativo já não é usado nos alunos, mas pelos vistos pode ser aplicado aos docentes mais ou menos à vontade. Será o currículo alternativo deles... 

Enfim, sempre é progresso. A professora agora vai ter tempo para se actualizar.