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Crónicas de uma Muçulmana

Um desejo para 2010

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A pequena história que relato fala da necessidade de olhar para os "islãos" que estão debaixo de outras lâmpadas, menos mediáticas, mais invisiveis. Faço votos de que 2010 seja de procura desse conhecimento que nos faz falta, mas também, e acima de tudo, o de construção, independentemente da crença, do respeito e da dignificação da condição da nossa humanidade comum.

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)

Quando chegaram as férias de Natal, tivemos o tão desejado reencontro com os nossos amigos israelitas e seus filhos, aqui, em nossa casa. Temos uma grande amizade desde há 14 anos, altura em que iniciámos os nossos estudos para o doutoramento na Universidade de Cambridge. Eles ficaram por lá, nós regressámos ao nosso país. Sendo eles judeus e nós, muçulmanos xiitas ismailitas, trocámos presentes pelo Hannukah e pelo Dia do Imam, e também partilhámos do espírito geral português de celebração do nascimento de Jesus. Sendo judeus e muçulmanos europeus, se não fosse a celebração em redor do nascimento de Cristo, talvez não fosse possível o reencontro nesta altura do ano. A época evocava factos significativos das nossas identidades religiosas e a importância das tradições, da educação e dos valores no futuro das vidas dos nossos filhos. Para aqueles que costumam ler o meu blogue, saberão exactamente que, ao dizer isto, não pretendo de forma alguma, minimizar o importante papel que o Profeta Issa (Jesus) teve no entendimento e na formação da religião que pratico.

À medida que o Velho Ano fechava os seus dias, e sendo muçulmanos europeus, juntá-mo-nos aos nossos amigos e vizinhos do prédio para receber o Novo Ano. Integrá-mo-nos nas tradições comuns e enviámos a todos os nossos amigos, familiares e amados, os melhores votos para 2010. Através dos telemóveis e da Internet ligá-mo-nos ao mundo, e o mundo estava ligado a nós, pelo pensamento, nos corações, e nas orações.

No entanto, talvez porque esteja mais exposta e seja mais desafiada a reflectir sobre as identidades conflituosas e confusas, não posso deixar de sentir receio sobre o presente e o futuro das relações humanas, especialmente daquele que tem medo do Outro - do desconhecido, do menos vísivel, ou mediatizado, contudo real, e não necessariamente demonizável. Para tornar este pensamento mais claro, vou usar o exemplo da história contada por Azim Nanji que encontrei num artigo inspirador:

"Alguns homens sábios que estão sentados numa praça, numa aprazível noite de verão, faziam o que os homens sábios fazem - partilhavam um tipo de sabedoria, ao mesmo tempo que tentavam resolver os problemas do mundo! Enquanto estavam sentados num banco, observavam uma jovem mulher que andava de um lado para o outro, parecendo que procurava algo que perdera. Não resistindo à curiosidade, perguntaram-lhe o que procurava e ela respondeu: 'perdi um brinco'. Perguntaram de novo: 'mas sabe exactamente onde o perdeu?'. 'Não, respondeu a mulher. Não sei onde o perdi'. Perplexos perante a resposta, os homens sábios questionaram de novo: ' Então porque procuras neste lugar apenas, andando de um lado para o outro?' E ela responde: ? Porque este é o único lugar onde existe um poste de iluminação'"

Nanji refere-se aos "islãos" que estão debaixo de outras lâmpadas, menos mediáticas, mas que existem, e para os quais também devemos olhar e conhecer. A esse desejo acrescentaria os votos de iluminação sobre a nossa humanidade comum, construída sobre a diferença. Dela retiramos a beleza e a riqueza das mundividências que foram moldando civilizações humanas e dando respostas variadas e criativas perante crises económicas, sociais, e desastres naturais. Que 2010 seja o início de um compromisso de construção, independemente da crença, de relações fundadas no respeito e na dignificação da nossa humanidade comum.

A wish for 2010

*A Salaam significa paz