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Expresso

Crónicas de uma Muçulmana

O Papa, a Páscoa e a Pedofilia

Esta Páscoa fica marcada pelo ódio a Bento XVI. A igreja carrega a sua cruz, na culpa e nos remorsos. Mas é preciso ler nas entrelinhas.

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)

Em criança, chegada a Páscoa, via sempre os filmes épico-religiosos que faziam pensar sobre a injustiça do Homem sobre o Homem, a bondade dos Profetas e a infinita misericórdia divina. À medida que fui crescendo e aprendendo a interpretar os factos sociais, a antropologia e a psicologia tornaram-me mais crítica. Uma das questões que mais intrigava era a de recorrência de um cristianismo com Cristo sempre branco, loiro, de olhos verdes, vivendo o sacrifício, a dor e o sofrimento. Imagens que contrastavam com as de um islão negro, agreste, vingativo, conquistador, de moiras sexuais, exotismos, e orientalismos. Neste tempo de profundas conturbações, assentes na politização religiosa, quando passo os olhos por esses filmes que focalizam incessantemente o sofrimento de cristo, e quiçá de todos os cristãos, deixando de fora uma história de aprendizagem, passo adiante. São histórias que insistem em temas que incrementam o ódio. Desejamos uma Páscoa feliz! Como pode ser feliz a época, se nos recorda só a dor e o sofrimento e incita ao ódio sobre os "infiéis"?

Coincidência ou não, esta Páscoa fica marcada pelo ódio perante o clero católico, mas mais concretamente, contra Bento XVI. A linguagem do senso comum divide-se e a igreja ressurge como vítima da sua cruz, na culpa e nos remorsos. Abomino a pedofilia e reconheço as incoerências e incongruências da Cristandade, mas tento ler nas entrelinhas. E para quem vê de fora, como eu, lendo e observando as mediatizações desta figura eclesiástica, fica uma certeza: o cardeal Ratzinger ainda não é o bom substituto de João Paulo II! Para os católicos populares, como os portugueses em geral, que não apreciam a intelectualidade, a firmeza, o rigor, e preferem antes o catolicismo do sofrimento, da cruz, do populismo, do culto aos ícones, este Papa não satisfaz. E pesem embora as palavras de ignorância que utilizou na famosa aula de teologia em Ratisbona, onde o Profeta Muhammad foi vilipendiado e malfadado, entendo que Ratzinger tentou ajudar a cristandade católica a dar um salto intelectual. Mas, não é fácil convencer o crente quando a crença toma conta da racionalidade. Sobretudo entre os fanáticos! Mesmo entre os muçulmanos ismailis vemos resistências semelhantes aos discursos intelectuais do Príncipe Aga Khan IV, que são na forma, profundamente diferentes das do seu avô, o Sultão Muhammad Shah.

É por isso que prefiro na crença, deixar-me levar, se preciso for, para o questionamento; para a construção da dúvida; para caminhar no sentido do acreditar; não em Deus apenas, mas nos seus sinais, (nos ayats), na natureza, nas pessoas, no conhecimento.

A crise, como alguns afirmam, não é só religiosa, nem só de hoje. Tem muitos anos de história. Nem é exclusiva do cristianismo - o islão vive-a hoje intensa e conflitualmente. Entre judeus, nem todos partilham da mito-história que já tantos mortos e desgraçados vem causando no Médio Oriente. A pedofilia também não é nova, infelizmente. Nem é exclusiva de crentes; nem tampouco só de padres católicos. Quanto mais fanáticos e fundamentalistas são os poderes instituídos, sejam paternais, religiosos ou outros, mais podres e porcos são os que preconizam o malfadado "bem". Os muçulmanos também têm os seus pedófilos; são indivíduos aparentemente profundamente moralistas. Alguns sacerdotes. Basta ouvir o que dizem sobre as mulheres! É óbvio que esperamos que o bom exemplo venha do poder instituído e reconhecido, sobretudo dos que preconizam o Bem. Raramente acontece. O secularismo tem também os seus podres e corruptos, mas celebramos vivamente a laicidade e a República. Temos sempre dois pesos e duas medidas.

Efectivamente, é a sociedade humana que está em crise. A sexualidade e a criminologia são percepcionadas de forma diferente. É preciso redefenir uma nova ética que integre a humanidade crente e não crente, moderna e tradicional. É tempo de olhar para o todo integrando as partes; construir um mundo mais justo, sem promover o ódio. As religiões, porque se fazem de religiosos, de seres pensantes, só têm que apanhar o comboio desta ética renovada. Aí sim, teriamos uma modernidade com uma ética que permita olhar-nos na reciprocidade da nossa humanidade comum.

PS: Aos meus leitores regulares peço que escusem a minha ausência prolongada por motivos de saúde. Para os que detestam os meus textos, agradeço a paciente espera para voltarem ao ataque.

The Pope, Easter, and the pedophiles

*A Salaam significa paz