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Expresso

Contra-semântica

Quem faz um filho fá-lo por gosto? Do apego súbito à natalidade.

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O Governo anunciou há um ano um pacote de medidas sobre a natalidade. Nada. Aparece agora com o debate. E as medidas.

Vejamos:

Em primeiro lugar, estão expulsas do debate as mulheres discriminadas no acesso à PMA graças ao chumbo das propostas de lei do PS e do BE. O chumbo foi, em si mesmo, um contributo agressivo e insultuoso contra a natalidade.

Em segundo lugar, o Governo não pode esperar que os portugueses levem a sério a intenção de animar a procriação escondendo a governação dos últimos quase quatro anos.

A cinco meses das eleições legislativas e a três meses do fim desta legislatura a realidade dura e ideologicamente construída para as famílias não desaparece com o encanto da natalidade politicamente vazia.

O Governo da austeridade expansionista, do além da Troika, dos orçamentos de estado que cortaram três vezes mais do que estava previsto nos apoios sociais, que cortaram o dobro do que estava previsto na educação e na saúde, que cortaram salários e pensões, que cortaram subsídios de férias e de natal, o Governo que incentivou a emigração de milhares de jovens, este Governo não é, assim de repente, o melhor conselheiro em matéria de procriação.

O enorme aumento de impostos e a assumida vida do empobrecimento regenerador tiram, não o gosto, mas a possibilidade de fazer um filho.

Sabe quem sabe que para se ter filhos convém ter emprego com direitos, rendimentos e estabilidade.

Os números do emprego, do desemprego, dos cortes nos salários, da falta de apoio aos desempregados e dos cortes nos apoios sociais são conhecidos. As famílias estão a viver uma hecatombe em instabilidade permanente.

Como bem explicou no debate sem Governo presente, esta semana, a Deputada Sónia Fertuzinhos, o impacto desta política na natalidade foi o seguinte: se entre 1990 e 2010 o número de nascimentos caiu 13%, entre 2010 e 2013 caiu 18%. Nos três últimos anos o número de nascimentos caiu mais do que nos 20 anos anteriores.

Perante este cenário, entre ver a bola e ouvir a maioria propor maravilhas como a possibilidade de meia jornada no horário de trabalho da função pública, qual é a opção que o Governo pensa que os portugueses tomam?

Espero que nenhuma delas. Espero que responsabilizem Passos e Portas pela sua política e que um dia se possa voltar a fazer um filho por gosto.