Siga-nos

Perfil

Expresso

Contra-semântica

Ficar pobre.

 "O privilégio dos pobres". Ouvi isto em casa. Significa prioridade dada aos que não têm voz, porque pior que não ter comida é ser-se comido pela pobreza.

E esquecido.

 Depois aprendi a vestir-me dessa pobreza. Isto é: a habitá-la. Ouvir de antepassados, das mortes de filhos à sorte de surtos sem estado social, da partilha com o afeto da proximidade, da ausência de alternativa, de ausência de um grito a reclamar que reclamassem a cidadania dos direitos e não do assistencialismo fascista.

Vesti-me dessa pobreza. Para poder ser a pobreza, isto é, ser o outro, e falar dela sem truques mas sempre assumindo um discurso ideológico. Porque para pobreza, basta a pobreza.

Assisti a um caminho de redução gradual e sustentada dos níveis de pobreza. Cada pobre atirava-me para a responsabilidade coletiva da erradicação do horror da indignidade, mas assisti a esse caminho. Sei que se deveu às mãos de muita gente, do Estado e da sociedade.

Não percebo por que razão este Governo apostou no "empobrecimento regenerador", não percebo por que razão este Governo preferiu a abstração ao país real e destruindo a classe média cortou as pernas aos pobres.

Não percebo.

Em 1994, a taxa de pobreza era de 23%. Em 2011, conseguimos atingir, segundo o EUROSTAT, os 17,9%. Reduzimos a pobreza em 5 pontos percentuais numa década e meia, cerca de um quarto do total.

Com este Governo, a taxa aumentou pela primeira vez e significativamente.

São números que escondem homens e mulheres, crianças com fome, números que revelam que a taxa de pobreza subiu mesmo perante o truque de se fazer baixar o limiar da pobreza.

Qual será o número real?

Qual será o volume do grito da pobreza?

Gostava de dizer às dezenas de milhares de pessoas excluídas do RSI e do CSI que não vencerá a tese CDS da preguiça e de colocar pobres contra pobres: gostava de dizer a estas pessoas que o golpe de remeter à pobreza para remeter à indignidade e depois ao silêncio é antigo.

Gostava de dizer à antiga classe média e aos pobres tornados definitivos que se recordassem que este Governo assumiu o empobrecimento como estratégia, inevitável e justo.

Pior: não há dia que não venha com a ladainha dos aumentos marginais das pensões mínimas, talvez pensando que os pobres não votam. Talvez pensando que os pobres não se apercebam do ataque concomitante ao Complemento Solidário para Idosos ou ao Rendimento Social de Inserção.

Os portugueses, todos, aqueles que a direita quis dividir, sabem que se vive muito pior em Portugal do que há quatro anos.

Os pobres perderam os seus elevadores sociais: a classe média; a escola pública; o pequeno comércio.

Mas não perderam o direito ao voto.

Nem a inteligência.