Siga-nos

Perfil

Expresso

Mas alguém é a favor da censura?

Às vezes ainda me canso a ler os detratores do politicamente correto. São detratores, porque olham para o politicamente correto como inimigo. Lendo os textos que por aí aparecem, fico na dúvida se a devoção à causa se deve à falta ou ao falhanço de outras, ou se a dedicação à causa se deve a um delírio que inventa o tal do inimigo.

Os detratores do politicamente correto entendem que são os campeões da liberdade de expressão, reservando para nós, os que entendem que a linguagem, pelo seu valor simbólico e pela sua força, deve contribuir para a integração do outro, o lugar de censores.

Na sua luta imaginária, põem-nos palavras na boca, colam-nos a posições absurdas, assim em jeito de menorização do inimigo, da sua ridicularização.

Podemos gastar rios de tinta a explicar a importância fundamental que a liberdade de expressão – em todas as suas dimensões – tem num Estado de direito, uma liberdade, de resto, pouco acarinhada na Universidade e na educação cívica em geral. Podemos explicar cem vezes que a democracia exige que todos e todas possam exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, sem impedimentos, sem discriminações, sem censura. Podemos explicar cem vezes que temos um apreço visceral por quem se bateu contra o fascismo e pela nossa liberdade de expressão (e como há gente agarrada ao politicamente incorreto que conviveu bem com o fascismo, não é?), liberdade essa limitada apenas pelo direito penal e pela concordância prática que em casos concretos seja de fazer com outras liberdades ou direitos (direito ao bom nome ou o direito subjetivo a não ser discriminado em função da orientação sexual, por exemplo).

Podemos.

Mas.

Mas os detratores do politicamente correto agarram-se à notícia de obras de arte censuradas porque alguma pessoa lunática as teve por misóginas e aproveitam o absurdo para transmitir à sua audiência febril que nós – os defensores do politicamente correto – somos aquela pessoa lunática.

O que falta aqui?

Seriedade e decência.

Não saberia viver sem liberdade de expressão, conheço a força positiva e negativa das palavras, tenho por dado adquirido que a desigualdade gera liberdades diferenciadas, a dos privilegiados e a dos discriminados.

É por isso que sei o que posso dizer e escrever. O objeto da minha liberdade de expressão é o que eu quiser – posso ser racista, homofóbica e sexista - encontrando os tais limites impostos pelo Direito penal e pela concordância prática com outras liberdades ou direitos.

Posso.

Posso dizer quase tudo.

Mas devo?

A minha adesão ao politicamente correto passa pela minha adesão à igualdade. Escolho, em liberdade – sim, é uma liberdade – não propagar as palavras que propagam a desigualdade e a discriminação, seja ela qual for. Escolho combater democraticamente por esta atitude cívica e política. Uso as palavras para integrar e para combater – também por essa via – a desigualdade.

Assim o fazem muitas pessoas que conheço. Nenhuma delas é favorável à censura ou ao apagamento da história (talvez a contar a História, o que é diferente).

Entre o “poder” e o “dever” dizer-se uma palavra está uma atitude política. Não a substituam por moinhos de vento.

A não ser que não tenham mais nada para fazer.

Nesse caso, estejam à vontade. Alguém vos proibiu de falar?