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Expresso

O feminismo coisa-nenhuma 

São sempre as pessoas. São sempre as mesmas pessoas que sentem repulsa por qualquer feminismo verbalizado por mulheres que se atrevem a ter poder económico. São muitas vezes mulheres que insistem na tese absurda segundo a qual só as pessoas de poucos recursos, de trabalhadoras têxteis a operárias de várias condições, devem merecer os efeitos de leis igualitárias. Mais: são sempre as mesmas pessoas que, na verdade, fazendo pugilismo de classes para benefício de audiência própria, se arrogam do direito de representarem as mulheres efetivamente mais brutalizadas pela desigualdade. Essas pessoas não percebem a contradição evidente da sua presuntiva voz comunicante das “fracas” e a alegada adesão a um discurso de esquerda.

Ninguém de bom-senso nega que a pobreza e a precaridade laboral são potenciadoras terríveis de todos os tipos de violência de género: da violência doméstica ao assédio laboral (moral e sexual). A dependência económica torna impiedoso tudo o que resulta de relações de poder, às quais, quem tem de contar as moedas para viver dificilmente consegue escapar. O silêncio das vítimas de (sobretudo) homens que têm o poder de pagar e despedir é uma realidade terrível.

Infelizmente, há quem finja não perceber que a diversidade de graus de violência de género em função da condição económica e laboral da vítima não pode apagar a característica evidente do sexismo: ele é universal. Todas as mulheres, precisamente por serem mulheres, estão, à partida, em dificuldades. A discriminação em função do sexo está por isso proibida com especial fervor na Constituição, não se diferenciando a proibição em função dos escalões do IRS (que eu saiba).

Se o sexismo é transversal, evidentemente as leis igualitárias e a luta pela igualdade tem de ser de todas e de todos para todas e para todos, ainda que conscientes de que – é preciso dizer? – é mais difícil ser mulher e ganhar o salário mínimo do que ser mulher e ser de classe média ou alta.

As tais das vozes que fomentam a divisão das mulheres rejeitam o princípio da universalidade dos direitos fundamentais (artigo 12º da Constituição) e rejeitam o universalismo político, o que é absolutamente incompatível com o Estado de direito e com os valores de esquerda que evidentemente não representam.

Pior: vejo pessoas rejeitarem a valia de feministas economicamente fortes ou de movimentos como o #metoo e #timesup porque o reduzem a um episódio de Hollywood, mundo que desprezam e onde não reconhecem a possibilidade de existirem vítimas, porque entendem que quem tem dinheiro deve ser desprezado. São as mesmas pessoas que do alto da sua moral pretensamente representante dos fracos e das fracas odeiam Hillary Clinton, acusando-a de tudo o que nunca lhes ocorreu dizer de um político homem.

O lado mau dessas vozes é o facto de contribuírem para ocultar a verdadeira força dos movimentos em causa, precisamente o de terem criado uma voz coletiva, como escreveu Paulo Corte-Real, a qual ultrapassa em muito o tal mundo de Hollywood. Por outro lado, estão sempre a pôr em causa a valia de gente como Hillary Clinton ou de Oprah em termos de discurso feminista. Porque são ricas e poderosas. Fingem esquecer que nem sempre o foram e que o feminismo precisa de mulheres em posições de força – política e económica – e que já agora usem essas posições para falarem de discriminação de género. É o que essas mulheres fazem e, pela minha parte, fico-lhes grata.

O lado bom dessas vozes é o de contribuírem para que estejamos a discutir o sexismo como nunca. Se estivermos atentos e atentas, muitas das pessoas que subitamente se interessam pelo assunto, confundindo anedoticamente liberdade sexual com coação e importunação sexual, nunca tinham aberto a boca sobre feminismo. Fazem parte da larga maioria de gente que não tem a perceção de que há uma discriminação gritante em função do sexo. E é com este dado que devemos iniciar sempre a discussão. Depois podemos passar pelo trabalho cansativo, mas necessário, de explicar que não há feminismo sem luta pela igualdade social, económica e sexual entre homens e mulheres. No meu caso, estou sempre a explicar que rejeito movimentos hiper-criminalizadores, rejeito a criminalização do piropo como foi um dia proposto, rejeito a inversão do ónus da prova e sou favorável à criminalização de parte do assédio de rua, tal como veio a acontecer com a aprovação do crime de importunação sexual.

Tenho memória. Sei bem que aquando da luta pela IVG havia quem defendesse que a despenalização do aborto só tinha a ver com mulheres pobres e não “com as outras”. Seria assim – lá está – um direito não universal. Era o discurso de alguma direita e da tal falsa esquerda (devidamente horrorizada com qualquer dos Partidos), que de tão falsa nunca foi coisa nenhuma.

O mérito das campanhas #metoo e #timesup passa precisamente por alertar para a discriminação que existe - e por garantir, enfim, uma voz. O ponto mais interessante dos Globos de Ouro, para além da celebração de séries e filmes centrados em mulheres (ao contrário do habitual, sobretudo nos filmes), foi sobretudo a sensação de poder coletivo associado a uma voz coletiva.