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Expresso

A família de Cristas

Fiquei contente quando Assunção Cristas assumiu a presidência do CDS. A alegria foi passageira. Apesar das responsabilidades de Cristas no Governo mais moralista que nos governou, tenho presente o que lembro da vida académica da líder do CDS e a diferença que fez aquele Partido ser liderado por uma mulher, nomeadamente no que toca ao apoio a opções como a lei da paridade.

Por isso mesmo estava convencida de que Cristas iria fazer diferente (por oposição) de Portas, tentando inverter os laivos de populismo que conhecemos de PP desde os tempos em que inventou Manuel Monteiro.

Infelizmente para a limpeza da Política, Cristas deu-se conta do sucesso que o populismo faz por esta Europa fora e nos EUA e, em vez de o rejeitar (afinal há uma fotografia de Adelino Amaro da Costa no Caldas), apanhou-lhe o estilo. Fê-lo com intensidade menor, claro, ninguém de bom-senso comparará Cristas a Trump, mas a verdade é que a líder foi beber ao que de pior a Política enfrenta pelo mundo fora.

Foi o caminho fácil, o caminho de gente fraca, porque a pessoa que há dois anos apresentava previsões no Parlamento com cartazes coloridos e dava prendas infantis a António Costa (óculos, retrovisores, penso que sobretudo as crianças estarão recordadas) deu com o fracasso da estratégia. As suas previsões acerca de uma evolução catastrófica da economia, do emprego, da dívida e da estabilidade política falharam todas e a prendinha do retrovisor saiu-lhe cara: afinal pegamos nele e todos os indicadores referidos são hoje muito mais positivos do que no tempo em que a líder era governante, o que transforma o retrovisor de Cristas num espelho do seu falhanço como governante e como presidente do CDS.

É por isso que lhe deu a fraqueza dolosa. Entrou numa viagem de difícil retorno, essa que escolhe a exploração da dor de gente de carne e osso para erguer o dedo em modo acusatório ao PM ou que desvaloriza o institucionalismo democrático em nome do “contacto direto com o povo”. É com o povo no peito que a populista de serviço insulta em vez de apresentar alternativas e é com a ilusão de domínio do povo (que tem por seu) que tenta assustar o mesmo com as palavras da insinuação.

Que palavras são essas? Berrar “esquerdas radicais” ou “esquerdas unidas” não lhe tem dado frutos e eis que perante o caso da Raríssimas – que em sede de comissão entregou ao seu Deputado luta-na-lama António Carlos Monteiro - descobriu a nova expressão que insinua: “a grande família socialista”.

Cristas não se atreve a concretizar uma única acusação de ilegalidade praticada por algum ministro ou ministra, mas deixa no ar o fantasma de um polvo usurpador da vida do (seu) povo: “a grande família socialista”. Repete muitas vezes a expressão, diz mesmo que tem medo da dita família, e assim se “redime” perante o espelho do seu fracasso. A sua “redenção” é a cedência ao insulto e à insinuação. A sua “redenção” é destruir o legado da democracia-cristã e criar uma – aqui sim – verdadeira nova família política em Portugal: o partidinho popular.

A família socialista é de facto grande, o PS é um grande Partido. Entendo que Cristas se aleije com o facto de o destruído CDS ter menos de 3% nas votações autárquicas.

Gosto da minha família.

Cristas escolheu a dela e ilustra-a bem no Correio da Manhã. Está em casa.