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Expresso

Pedrogão não é um palco pessoal

Temos de trabalhar juntos para que não tenhamos versões contraditórias do que aconteceu em Pedrógão. Palavras ponderadas de Passos Coelho, na quarta-feira, já consciente da irresponsabilidade das suas afirmações acerca de suicídios.

O texto do projeto de lei consensualizado no sentido de constituir uma comissão técnica para o apuramento rigoroso de todos os factos e de todas as responsabilidades serve de base à afirmação responsável de Passos Coelho.

Dir-se-ia que neste caso terrífico sabemos qual a posição do PSD. Mas não.

Na audição da Ministra da Administração Interna (quarta-feira à tarde) na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, tivemos dois Partidos.

Um representado pelo Deputado Fernando Negrão, que fez as questões exigentes e normais que cabem a quem fiscaliza politicamente o Governo e outro representado pela Deputada eleita por Leiria, Teresa Morais, que interpelou a Ministra em estado de alma “capitalizar a dor”, inventando factos, dando cronologias por certas, interrompendo furiosamente a Ministra, violando as regras elementares de bom funcionamento da Primeira Comissão.

No dia seguinte, no debate parlamentar, Teresa Morais subiu à tribuna para mostrar a dupla face do PSD. Foi um dos momentos mais vergonhosos a que assisti no Parlamento.

Estamos a falar de uma tragédia da nossa vida coletiva sem memória e há uma Deputada que se aproveita da dor concreta dos que sobreviveram ao inferno para exercer sem pudor o populismo. Teresa Morais desmentiu o PSD de Passos Coelho da véspera. Afinal nada há para apurar, ela “sabe” a partir da “seriedade” do “diz que disse” que aconteceu a, b e c, descreve causalidades por estabelecer, acusa de dedo em riste, lembra que “fala em nome do povo que quer que ela faça o que está a fazer”, mente sobre dados concretos que na véspera foram esclarecidos pela Ministra da Administração Interna e a consciência não lhe treme.

Todos os Partidos apelaram à ponderação. Mas percebi que para Teresa Morais o debate era um palco para o seu mandato.

Morreram 64 pessoas. Tem de haver, o mais rapidamente possível, um apuramento ponderado e exato de tudo, mas de tudo o que aconteceu. Tem de se perceber o que falhou, onde, porquê, tem de haver consequências. Ninguém admitirá um poder político que deixe esta tragédia na opacidade.

Entretanto, enquanto se descodifica a cronologia exata dos acontecimentos, enquanto decorrem os inquéritos, enquanto se cruzam testemunhos e até às conclusões da comissão técnica, que ninguém seja uma Teresa Morais. Porque não se fala por cima dos mortos e em nome deles precisamente para os calar. Isto é, para ter um palco pessoal.