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Expresso

Mulheres – vencemos sempre numa espécie de abismo

Ontem foi aprovada a proposta de lei que estabelece o regime da representação equilibrada entre mulheres e homens nos órgãos de administração e de fiscalização das entidades do setor público empresarial e das empresas cotadas em bolsa.

Estou feliz. É a primeira afirmação que me ocorre. A proposta de lei do governo (uma palavra especial para o empenho do Ministro Eduardo Cabrita e da Secretária de Estado Catarina Marcelino) alterada na especialidade com o contributo do BE e do CDS foi aprovada, acabando com as quotas implícitas para homens.

Senti muito caminho no sentido da igualdade de género quando vi PS, BE, PEV e PAN a aplaudirem de pé, sendo de destacar com enorme justiça as palmas em simultâneo de Assunção Cristas, de pé, também, pela igualdade, a provar que a sua liderança faz a diferença.

O PSD, que anunciara na especialidade o voto contra, absteve-se, provavelmente porque se apercebeu, perante o cenário parlamentar, que a sua posição era um flagelo para si próprio.

O PCP votou contra apesar do parecer positivo do MDM. Foi aflitivo ouvir tantas e tantas vezes a Deputada Rita Rato mostrar a ausência de pensamento estruturado sobre estas questões, limitando-se a afirmar que a igualdade de género resulta de “opções de classe” e mais nada, explicando a evidência, essa circunstância de haver mulheres em locais de decisão que tomam más decisões para as trabalhadoras. Para o PCP, ou seriam admissíveis quotas se as mesmas incluíssem apenas mulheres comunistas (apelando à velha doutrina da interpretação da vontade geral do povo) ou, se é irrelevante para o PCP que numa sociedade evoluída mulheres e homens estejam representados mais equitativamente nos locais de decisão, é justo perguntar porque não optou aquele Partido pela abstenção. Não se compreende. E dificilmente se desculpa. O isolacionismo ficou colado ao PCP.

É tempo do primado da política sobre o poder económico. É tempo de reconhecer que metade da população não pode ser ignorada para efeitos dos objetivos desta proposta de lei, o que não congela as demais políticas públicas de igualdade de género, como as que combatem as discriminações e as disparidades salariais e a violação de todos os direitos das trabalhadoras. As políticas complementam-se.

Acontece que estamos a falar de mulheres. E a proposta de lei que vai no sentido de toda a evidência científica, dos exemplos de boas práticas internacionais, da agenda da ONU para uma sociedade 50/50 passou confortavelmente porque à última hora o bom-senso sobre o espelho de alguns imperou. Porque as mulheres ou ficam para trás ou, quando vencem uma batalha de enorme cariz político, vencem-na numa enorme solidão. Isto é, com muita indiferença em seu redor - a sociedade é o que é, lá está. Mas vencem. Vencemos. Vamos vencendo. Sempre numa espécie de abismo. É por isso que sabe tão bem.