Siga-nos

Perfil

Expresso

Orgulho

Hoje realiza-se em Lisboa a marcha orgulho LGBT. Orgulho é o contrário de vergonha e é por isso mesmo que todos os anos esta marcha tem lugar. É a marcha da visibilidade contra a vontade que persiste em tanta gente de manter os homossexuais sob o manto da “discrição”, isto é, da vergonha, gente que jura nada ter contra “eles”, mas que tem por ofensivo o acesso de todos os casais homossexuais a todos os direitos e por provatórias as manifestações de afeto entre gays ou entre lésbicas (seja na rua, seja no colégio militar, seja numa escola pública em Vagos, seja onde for).

Gente que se dá ao direito de “pedir” que os homossexuais guardem a sua “intimidade” para si, que não a “exponham”, como se a homossexualidade fosse a revelação de atos íntimos e não uma questão identitária. É como se o facto de hoje cada vez mais – felizmente – gays e lésbicas assumirem-se como tal fosse uma afronta a quem tinha por único elemento (auto)revelável (porque normativo) a heterossexualidade. Curiosamente, quem assim pensa, e acusa os gays e as lésbicas de exibicionismo, não inverte o raciocínio, o que legitimaria a crítica a um beijo na boca dado na rua entre um homem e uma mulher.

Este ano, no que toca a Portugal, marchamos com o orgulho de sempre e com o respaldo da lei. Foi há muito pouco tempo que o Parlamento foi a casa da vergonha, tentando referendar crianças (iniciativa do Deputado Hugo Soares), no âmbito do processo legislativo da coadoção que, depois de aprovado na generalidade, foi chumbado na votação final global contra o consenso científico, contra o TEDH, isolando Portugal na Europa e ferindo crianças de carne e osso.

Felizmente, a atual maioria de esquerda cumpriu a igualdade e aprovou a adoção por casais do mesmo sexo (e consequentemente a coadoção), bem como a procriação medicamente assistida (PMA) para todas as mulheres, independentemente do seu estado civil ou da sua orientação sexual. A PMA foi a última das conquistas, porque estava em causa dar autonomia às mulheres, permitir que um método já existente (inseminação artificial) fosse acessível a todas as mulheres, e não apenas às casadas ou unidas de facto com um homem. Ou seja, foi a luta mais difícil, porque tinha por adversários cumulativos o sexismo e a homofobia. A luta foi bem-sucedida e as mulheres deixaram de ser perseguidas por querem ser mães sem a tutela de um homem, pelo que a esta conquista histórica imprimiu à marcha do ano passado, como imprime à deste ano, um cariz feminista que tem de estar sempre no ADN dos movimentos LGBT.

Todos os anos sabemos que falta muito por fazer ao nível da educação, da mudança de mentalidades, da consideração dos fatores de discriminação múltiplos que cada pessoa pode encerar em si mesma, da adequação dos serviços do Estado de direito – como os da saúde – à população LGBT, da atualização da legislação relativa às pessoas trans e todos os anos marchamos exigindo a igualdade toda e exibindo o reverso da vergonha.

Somos internacionalistas e assim como no ano passado Orlando esteve tão presente na marcha, este ano, para além de não nos esquecermos das pessoas LGBT que vivem em países terrivelmente opressores, estamos especialmente solidários com os homossexuais na Chechénia, vítimas de perseguição estadual e social.

No início deste artigo mencionava os que insistem em ver na recusa do armário um exibicionismo.

Quando. numa escola secundária, como aconteceu em Vagos, alunas e alunos juntam-se numa manifestação de apoio a duas colegas lésbicas, sei que estamos muito, mas muito melhor e que fizemos um longo caminho.

É continuar. Com orgulho.