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Expresso

Entrevista debate – valeu a pena

José Gomes Ferreira pretendeu passar por entrevistador de António Costa, quando na verdade foi seu adversário num debate sem moderador. Sabemos da paixão do jornalista pelos anteriores quatro anos de governação, pelo que outra coisa não seria de esperar, na última quarta-feira, do que um frente-a-frente.

Dele saiu António Costa vencedor, desde logo recordando aos mais esquecidos o que JGF disse há um ano num outro frente-a-frente. Há um ano, o jornalista pediu explicações para o iminente desastre, era parte do coro do anúncio da vinda do diabo e, quarta-feira, teve de aceitar que se enganou em tudo.

Mais importante, porém, foi desmascarar a tentativa de passar a mensagem segundo a qual ainda estamos a viver a mesma austeridade imposta pelo governo anterior. A SIC mostra um quadrinho com algumas medidas não revertidas e pensa que em casa o povo deitará as mãos à cabeça.

Valeu a pena ouvir o PM dizer o evidente: rigor orçamental e austeridade não são sinónimos. Valeu a apena ouvir António Costa explicar que o que distingue a direita e esquerda não é a vontade de conseguir o tal do equilíbrio orçamental, mas a forma de o conseguir. Precisamente, há um ano, a direita acusava a esquerda de estar a seguir um caminho suicida, diferente do seu, pelo que os resultados das contas públicas seriam desastrosos. Agora, que os resultados são bons, a direita – e JGF – apressa-se a reverter o discurso e a dizer que afinal o governo atual continuou as políticas do anterior. Numa palavra, a direita está tão sem rumo que o seu discurso é dizer que o que acontece de bom vem de trás e que o que acontece de mau é culpa do presente.

Tudo era impossível, há um ano, para a direita e para JGF. Era impossível devolver salários, aumentar pensões, aumentar o RSI, aumentar o CSI, aumentar o salário mínimo, entre outras medidas e, ao mesmo tempo, ter rigor nas contas públicas. Porque para a direita (que é a que temos) o êxito das contas públicas depende do esmagamento da dignidade das pessoas, daí que tenha governado cortando em salários, em pensões e em apoios sociais sem que o memorando a isso obrigasse, porque acreditava ideologicamente na virtude da escolha de bater nos mais fracos. Era a austeridade virtuosa, quem não se recorda? Entre este ataque à dignidade das pessoas e uma alergia radical a componentes essenciais do mundo do trabalho, como os sindicatos, a direita (e JGF), quando não travada pelo Tribunal Constitucional, falhou nos resultados, sendo sempre de rejeitar as suas escolhas mesmo que neles tivesse acertado. Porque as pessoas não são variáveis de uma máquina calculadora.

Valeu a pena ouvir António Costa num frente-a-frente com JGF, isto é, com a governação anterior, a mostrar mais uma vez que é geringonça, mas funciona.

  • Na íntegra: a entrevista de António Costa à SIC

    António Costa desdramatiza a greve dos professores marcada para um dia de exames nacionais do ensino secundário. Em entrevista à SIC, o primeiro-ministro falou também sobre temas como a revisão dos escalões do IRS, o défice, a saída do procedimento por défice excessivo, as suspeitas de corrupção na EDP e na REN e as eleições autárquicas