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Expresso

Mário Soares, continuamos isto? 

E depois houve aquele dia. Fui ter com ele a perguntar se realmente fizera bem em arriscar. O assunto era resumido a um obviamente, quando se acredita avança-se e depois o assunto desvanecia-se na conversa moderna, tocando ela nos idos anos da resistência à ditadura, tocando ela no presente, na certeza da qualidade dos do presente.

E depois houve aquele dia em que entre tantos falávamos da defesa da Constituição e do Estado social, de como fazer qualquer coisa, e esse dia foram muitos, sempre lutei pelas coisas com angústia, às vezes as suas gargalhadas emprestavam-me a alegria na luta porque alegria na vida, pela vida. Fazemos isto? Obviamente, quando se acredita avança-se.

E depois houve aquele dia em que lhe disse é tempo de filiar-me no PS e queria tanto que todas e todos percebessem que um espírito livre é espírito livre sempre, e que livre o dia em que se decide dizer este é o meu partido político. Então dizia-me havia de ser quem a assinar o papel? e puxou da caneta e ficou lá: Mário Soares.

E depois houve aquele dia em que apenas quis ouvir da história e sentei-me a olhar fixo para a posição sentada inconfundível, os braços e as mãos ao lado das palavras, o riso pronto, mesmo quando o conto metia o dia (mais um) na prisão, o comboio da liberdade, Maria Barroso, os amigos, pelo meio, a comida, a “padralhada” (como chamava com ternura à quantidade de laços que fizera com padres), os filhos, os netos, Salazar, as presidências abertas, o povo português, então e você, camarada, conte-me lá das suas? Então dizia-lhe dos meus eternos tremores, da ansiedade com que via as coisas, dizia-lhe das novas lutas da igualdade, fazemos isto? Obviamente, quando se acredita avança-se.

E depois houve o dia em que fui jantar com ele, aprendi a gostar de suspiros e fui avisada de que a palavra camarada era para ser usada, de que o punho esquerdo servia para ser erguido, de que se grita PS. Lembro-me de lhe explicar que já sabia disso, que as palavras Abril, camarada ou partido socialista são contemporâneas e então falou-se da circunstância e aprendi muito da Europa sonhada e da Europa que andava a pôr o dinheiro acima da Política. Tínhamos de bater o pé. Temos de bater o pé. Fazemos isto? Obviamente, quando se acredita avança-se.

E depois achei que estava preparada para isto. Afinal não estava. Ouvi Mário Soares morreu e pareceu-me um tiro inesperado e lembrei-me da sua poltrona e dos seus braços e mãos ao lado das palavras, aquela dança, então chorei um e agora?

E só hoje consigo escrever assim:

Continuamos isto, Mário Soares? Obviamente, quando se acredita avança-se.