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Expresso

Imprensa Hollywood

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Nice.

Não é a primeira vez que assistimos ao horror sobre o horror, esse fenómeno abjeto que explora a morte e a dor, como se num show em direto, sem limites, na verdade fazendo da ausência de limites o lema da prestação do “serviço televisivo”.

O horror ocorrido em Nice foi seguido pela CMTV – apesar dos pedidos em sentido contrário por parte das autoridades francesas – com comentadores respeitadíssimos que falavam enquanto passavam descaradamente imagens de corpos no chão, imagens de crianças, seres humanos mortos, postos ali, sob a nojenta capa da “liberdade de imprensa” e projetando a pior definição da empatia humana, essa que alegadamente precisa de ver cadáveres e sangue para sentir a dor alheia.

Para a CMTV, os direitos mais elementares, que podem ser resumidos na palavra decência, estão à venda. A dignidade de cada pessoa mostrada em loop vale dinheiro. As relações familiares afetadas naquela câmara televisiva a céu aberto valem dinheiro. O direito à imagem dos seres humanos atingidos num ápice por um ato de um sociopata vale dinheiro. A reserva da vida privada dos homens, mulheres e crianças filmados como se moscas vale dinheiro. A ofensa à memória das pessoas falecidas é coisa para aproveitar na gigantesca máquina registadora da CMTV.

Dirá quem manda na CMTV (e no Correio da Manhã) que se trata de liberdade de imprensa, que têm o direito de criar “audiências”.

É realmente o que têm feito, desde a transmissão de imagens aéreas do funeral de uma criança à violação de direitos de personalidade e do segredo de justiça difamando e lucrando.

Sendo evidente que a CMTV e o CM ultrapassam os limites da “liberdade de imprensa” e que não são realmente “imprensa”, hoje interessa-me outra dimensão deste horror perante o qual só vejo impotência.

Independentemente da discussão jurídica acerca do conflito liberdade de imprensa versus direitos fundamentais, a CMTV promove emissões de elevadíssimo risco. A CMTV sabe que para além de ter vendido a decência está a promover comportamentos de imitação, a CMTV sabe que quando é pedido para não se filmar determinadas imagens em casos específicos há uma razão para isso. Mas para a CMTV vale mesmo tudo. Tudo. Esmagar direitos, esmagar a decência e incentivar comportamentos sociopatas futuros.

Por outro lado, isto não é Hollywood.

Tenho por extraordinário que as críticas – justas - à CMTV e ao CM deixem de fora quem se senta nos seus estúdios como comentador ou quem assina colunas de opinião naquela coisa a que chamam de jornal.

Parece que se traça uma separação entre o “canal” e o “jornal” – que são altamente criticáveis – e os senhores professores e colonistas – que são “destacáveis”, são apenas “especialistas” ou “opinadores de fora”, totalmente alheios à maior vergonha que passa na televisão e que se vende nas bancas.

Acontece que não são. Quem se presta a estar horas a comentar o atentado de Nice enquanto aquelas imagens abjetas vão passando, quem se presta a escrever colunas de opinião no CM numa página, sendo que na página seguinte está a dar-se cabo dos direitos de alguém é cúmplice da vergonha.

Não, isto não é Hollywood.