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É tempo de usar o dicionário certo: é o que faz António Costa

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No mesmo dia, vai sendo assim, no mesmo dia, liga-se um canal de notícias e salta-se de um atentado brutal no aeroporto de Istambul para a notícia 0, 2%.

O pano de fundo é sempre o mesmo. A UE acima da lei, acima da igual dignidade dos Estados, a UE discricionária e impositiva de uma política única, a do diretório, e por isso uma (não) UE.

Na verdade, uma entidade raptada por quem pode mais e assiste impávida a um cemitério no mediterrâneo, cega ao crescimento de movimentos populistas e de extrema-direita, uma entidade que reage em grupinho e de forma hostil à pronúncia do RU, e que não se apercebe que os cidadãos e as cidadãs perdem à velocidade de um torpedo qualquer sentido de pertença representativa nos órgãos que os tratados dizem ser os que sentam à mesa os Estados, todos os Estados.

Com esse pano de fundo, no mesmo dia, vai sendo assim, no mesmo dia, liga-se um canal de notícias e salta-se de um atentado brutal no aeroporto de Istambul para a notícia 0, 2%.

Dia 29 de junho, neste contexto de morte, de terrorismo, de desagregação, de política única devastadora cumprida em excesso pelo governo anterior, temos de aturar a notícia 0, 2%. António Costa está em perante a eventualidade (que ocupa as mentes desocupadas de quem manda) de aplicação de medidas corretivas por incumprimento do défice por parte do governo Passos/Portas.

Os 0, 2%, epílogos de uma classe média portuguesa desaparecida, de uma taxa de pobreza jamais vista, de cortes das prestações sociais mais eficazes no combate à pobreza, do brutal aumento de impostos, da precarização do trabalho, do ataque violentíssimo a todas as vertentes do Estado social, como Bruxelas aconselhava e como a direita defendia no seu programa, são caso do Conselho Europeu John Thys.

O tema 0,2% é intolerável no pano de fundo que já descrevi, é incongruente quando olhamos para um país que foi espatifado com as políticas precisamente ditadas por Bruxelas e agradecidas pela direita e é imoral porque há limites para os jogos desiguais e tresloucados com que Bruxelas se entretém.

O tema 0, 2% gera artigos e notícias acerca de cenários possíveis, como a aplicação de sanções, a ausência de sanções ou, por exemplo, uma multazinha simbólica. De todos os cenários, este é o que mais releva violentamente, em termos simbólicos, desta cegueira na teimosia.

Fundamental fazer ouvir em Bruxelas uma voz sem rodeios. Fundamental ouvir António Costa afirmar exatamente isto: “Perante decisões com o dramatismo da saída do Reino Unido, com a crise dos refugiados, com a ameaça terrorista, com as ameaças externas que afetam a Europa, é absolutamente ridículo estarmos a discutir 0,2% da execução orçamental do anterior Governo,” (…) “aplicar multas a Portugal seria ainda mais grave num ano em que pela primeira vez mesmo nas piores previsões da Comissão Europeia é garantido que (Portugal cumpra) um défice abaixo dos 3%. Seria ainda um péssimo sinal porque significaria que a Comissão Europeia não percebia o que se está a passar hoje na Europa,” (..) “Infelizmente, a Comissão Europeia já me desiludiu suficientes vezes para eu poder ter a certeza de que não me desilude novamente”.

Isto: ridículo. É tempo de usar o dicionário certo.

É isto que faz António Costa.

Depois há Durão Barroso que diz que as “sanções vão depender muito do que o Governo disser e fizer”, esse protótipo da credibilidade para opinar perante o povo português.

Depois há Schäuble que tem por posto ser ministro das finanças da Alemanha, o país mais rico da UE. Uma opinião frenética, esta semana incendiário, a face mais simbólica da causa do afastamento dos cidadãos da UE.

Felizmente há quem use o dicionário certo, que desminta categoricamente e sem subserviências como as do passado as palavras de Schäuble. Foi o que fez o Governo português.

Isto: ridículo. É tempo de usar o dicionário certo.