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Expresso

Assunção Cristas ou a desconstrução da política

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A construção de uma oposição faz-se pensando, traça-se uma estratégia. Procura-se eficácia no discurso, tenta-se que passe para o eleitorado que o Partido em causa tem uma identidade própria, o que para o CDS, com uma liderança nova e tendo sido parceiro de um governo que massacrou sem necessidade o país, é particularmente importante.

O CDS tinha oportunidades para se destacar. Uma líder sem grande ligação ao aparelho partidário, mulher e com formação universitária inquestionável.

Por outro lado, se o PSD está claramente a caminhar para uma redefinição dos seus pilares ideológicos, no sentido de um liberalismo selvagem, o CDS tinha aqui uma oportunidade para tentar resgatar o seu eleitorado social, tentando fazer vingar a tese segundo a qual enquanto esteve no governo foi o parceiro que, ainda assim, aqui e ali, tentou travou alguma austeridade e que agora está de volta ao seu meio natural.

A hecatombe de Assunção Cristas durou dias: na substância, no método e no discurso.

No que toca à substância, Cristas, depois de 4 anos de saque, com um povo inteiro à espera de consistência ideológica em substituição da tecnocracia, optou pelo pragmatismo. Ora, o pragmatismo é a negação de uma estrutura ideológica, é a gestão do país caso a caso, sem fio condutor, é um saco sem fundo e, por isso, o vazio. O único partido de direita que podia apresentar-se resgatando a tal da substância das suas raízes, a democracia cristã e a doutrina social que suspendeu por quatro anos, afirma-se como a esquina do pragmatismo.

O mesmo é dizer que, sem substância, teremos um CDS capaz, e com gosto, de fazer uma coisa e o seu contrário, consoante seja mais prático, mais pragmático (a própria Assunção Cristas, favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, teve por pragmático disciplinar o grupo parlamentar no sentido de que as mulheres não casadas ou unidas de facto com um homem que recorressem à inseminação artificial via PMA para serem mães continuassem a ser criminosas).

No que toca ao método, a evidência do desastre deu-se nos debates quinzenais. Cristas, desde o início, fez uma opção: não debater o tema agendado para cada debate, mas antes aproveitar o debate para lançar um slogan para as capas dos jornais.

O lançamento é simples: Cristas anuncia ao país que vai acontecer uma hecatombe na semana pós-debate e questiona preocupadíssima António Costa. Este, claro, nada tem a dizer, porque nada está para acontecer. À primeira, o slogan ainda gerou um debatezito nos jornais, mas rapidamente se percebeu a pobreza do método, de resto pouco patriótico. Nenhuma das hecatombes anunciadas desde que Cristas é líder do CDS aconteceu. Assim, no debate quinzenal seguinte ao do anúncio da hecatombe não acontecida, Cristas esquece o assunto, insiste em não debater o tema do debate e lá vem novo alarme para slogan. Não pega, claro.

No que toca ao discurso, Cristas foi a revelação mais espantosa para quem esperava um CDS renovado. Ouvimos a líder centrista falar e sabemos que aquilo nos é familiar. É fácil reconhecer no seu discurso o populismo de Manuel Monteiro, de resto instruído por Portas. É desolador ver de volta ao mundo político o grau máximo da demagogia em traje sério, da mentira descarada (v.g. contratos de associação) em modo vamos emocionar alguém, o aproveitamento de factos desde que sejam isso, aproveitáveis, a desinformação, o tipo de perguntas mesquinhas em busca de um povo zangado com os políticos. Sim, a líder a querer saber, sabendo já, do número de nomeações efetuadas por este governo, ciente que não há qualquer ilegalidade, mas sorridente com o cheirinho que deixa no ar sobre o tema sensível às massas.

O CDS escolheu esta substância, este método e este discurso.

Está no seu direito concorrer para a desconstrução da política.