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Contra-semântica

O Problema da Direita é a Direita

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Contratos de associação, escola pública, prestações sociais, natalidade, segurança social, já foram vários os debates.

Em todos eles, já se percebeu que não há qualquer crítica válida no que toca à correção do caminho percorrido pelo Governo, do ponto de vista do seu programa, dos acordos com os partidos que lhe dão suporte no parlamento, da Constituição ou da lei.

O caso gritante é, claro, o dos contratos de associação. A direita, perante a evidência de se estar a cumprir a Constituição e a lei, analisando caso a caso, evitando duplas tributações, lança mitos, cria fantasmas, assusta o povo, fala pelas crianças em modo discurso abstrato.

O problema da direita não é, porém, o governo, ou a geringonça.

O problema da direita é a direita.

Uma direita perdida, perdida intencionalmente, deitando fora as suas raízes sociais e arrastando-se para um extremismo liberal que precisa de um tempo de encobrimento – o povo não pode ser apanhado de surpresa – donde apareça a combater moinhos imaginários.

Na verdade, a direita está a combater-se. Todos os dias.

A direita foi obscena na sua visão utilitarista do projeto europeu. Em vez de lutar por uma Europa por nós, usou esta UE - a precisar de reforma urgente - para prejudicar a política nacional e assim os portugueses. Com essa postura, perdeu o seu legado, passou – passaram – a partidos de internacionalismo de conveniência partidária.

A direita não se limitou a conformar-se com a pobreza e com as desigualdades. Lutou por esse modelo inevitavelmente resultante de um estado mínimo novecentista e, por isso, hoje acusa - bracejando como pode - o governo do PS de fazer aquilo que uma social democracia decente teria por urgente: repor rendimentos; repor prestações sociais; aumentar o salário mínimo; puxar pela classe média; apostar nos maiores motores da escalada social positiva, como a escola pública; dignificar o fator trabalho; apostar na qualificação dos portugueses; desbloquear os fundos estruturais; fazer tudo por tudo para garantir um serviço nacional de saúde e uma segurança social para todas e para todos sem sobressaltos.

A direita não pode fazer outra coisa se não lutar contra moinhos imaginários, porque está ao espelho a reconfigurar-se como a direita liberal, não social, por que alguns suspiraram aquando da fundação do PPD e do CDS.

Por isso, o problema da direita não está na Constituição, na lei, ou no Estado social. Está na sua própria sobrevivência enquanto direita que quer mudar toda uma faceta do regime a que os governos devem obedecer. Porque esta direita sabe que se estivesse no poder estaria sujeita à Constituição, embora a despreze.

Por estes tempos, no entanto, o ruído é a batalha contra moinhos de vento, são os mitos, as mentiras, a confusão em volta dos contratos de associação, tudo um enorme telhado enquanto encontra o tempo certo de dizer com todas as palavras aquilo que é.

E o que é faz toda a diferença para a importância de haver diferenças.