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Expresso

A Direita errada

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Está à vista de todas e de todos e em muito pouco tempo. A estratégia da direita alarmista foi, desde o início da sua derrota democrática, passar para o governo do PS o seu próprio desnorte. Com a pátria na lapela, mas sem rumo enquanto oposição, a direita apostou em esconder a sua perdição, fazendo crer que a perdição estava na governação. Para isso, inventou como que uma bússola que agitou freneticamente, num erro estratégico difícil de entender e pelo qual está a pagar caro: porque a democracia precisa de uma oposição que encha esse nome e não de uma direita perdida, errada.

A direita começou por apostar na ignorância dos portugueses acerca do funcionamento normal do sistema de governo. Alegou, com alarme, à margem da Constituição, que os Governos são eleitos diretamente e que não resultam da composição parlamentar: caiu mal a dificuldade do PSD e do CDS lidarem com a democracia. Foi a direita errada.

Depois, com alarme, avisou os portuguese “ignorantes” que os acordos parlamentares só são possíveis à direita e que os comunistas, os verdes e os bloquistas são gente perigosíssima, gente que tem diferenças evidentes com o PS, o que levaria à implosão da geringonça – um inovador conceito e evidentemente suicida para a direita. Acontece que os tais dos portugueses “ignorantes”, assim como sabem que PSD e CDS têm identidades partidárias diferentes e podem fazer acordos ou coligações, também sabem do democrático que representa um governo do PS ser apoiado por partidos que não perdem a sua identidade, mas que em nome do país unem-se no que os une, em prol de uma viragem da austeridade selvagem e falhada. Caiu mal a direita não ter entendido que os portugueses sabem que cada voto tem igual valor e que os portugueses sabem da possibilidade da unidade na diversidade e assistiram a isso mesmo. Foi a direita errada.

O PSD descobriu a pólvora na sua inovadora incursão pela democracia: ficar quieto, não representar o seu eleitorado fazendo propostas de alteração ao OE e chumbar todas as normas do mesmo sem critério. De resto, o seu silêncio continua agora na pessoa de Passos Coelho, que ainda na quinta-feira, no debate sobre o PE e o PNR não proferiu uma palavra, numa demissão de líder de oposição, um líder mudo perante os grandes desígnios do país, talvez porque a sua estratégia seja não ter estratégia, a ver se um dia a geringonça deixa de funcionar e então abrirá a boca. Foi a direita errada.

Já se percebeu, também, que a direita sem estratégia nem desígnio fez de tudo para que Bruxelas desse cabo do OE e assim, sem dó nem piedade, que em Bruxelas se pusesse em risco a devolução de rendimentos, as medidas de combate à pobreza, entre outras “indiferenças sociais” numa nova liderança centrista coma cara de democracia-cristã e com um PSD gritando social democracia sempre. Esta estratégia de costas para o país claro que falhou. Ganharam os portugueses. Falhou quem se bateu contra a sua dignidade. Mas ficou registado o passeio a Bruxelas acenando fantasmas num vale tudo apoplético. Foi a direita errada.

As medidas sociais foram tomadas e o desastre financeiro não aconteceu e hoje, sexta-feira, cá está o PE e o PNR.

O CDS, entretanto, quis distanciar-se do PSD. Como facilmente se percebe, e como bem notou o primeiro-ministro no último debate quinzenal, Assunção Cristas não convence. Adota o tom formal assertivo, mas desconstrói-se com a facilidade de qualquer tom. Cada pergunta que faz é sobre uma medida que não existe, acenando o terror desse acontecimento, até se verificar o engano e lá volta Cristas a fazer uma pergunta e a preocupar-se terrivelmente aos microfones sobre uma nova medida que não acontecerá, já que a outra, a tal imaginária, não aconteceu.

E estamos assim. Foi, desde o início, a direita errada. É a direita errada.

Merecemos melhor.