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Expresso

Rui Nunes: “A Crisálida” – um livro catastrófico, e bem

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É um livro catastrófico. Porque diz da verdade da nossa catástrofe. Diz da urgência de usar as palavras certas para impedir a ocultação permanente da nossa catástrofe. Da catástrofe da Europa que vai explodir. “Hoje”, a primeira palavra do texto. Porque é hoje, no “hoje” repetido em tantas páginas, que os pobres têm a pobreza de Deus, isto é, têm a sua eternidade e o desprezo da Europa.

É hoje, no primeiro dia do advento, que um homem é degolado à nossa frente, na televisão, e as palavras usadas para descrever o horror são triviais, cercam a degolação a um momento, não colam o espetador ao degolado, à nossa própria degolação.

Porque “hoje” a Europa e as suas praças, como a Marienplatz, iluminam o que pretende ser a sua definição: a luz tem diferentes pesos, pesa mais nos sapatos de 3000 euros do que na mulher romena com um copo de plástico à espera de trocos, ou no homem que aproveita os restos da comida de um prato; nenhuma luz ilumina os destroços. Os destroços, os destroços, a multidão metaforicamente assim dita, os que não se integram, nem querem, porque sabem não serem queridos, por enquanto são sons ou pardais pouco audíveis, até explodir a verdade da ira de serem o que somos fingindo não sermos e o leitor que complete a frase.

É hoje o tempo de combate aos livros povoados de palavras triviais. Cresce a indiferença, a raiva, o exílio dentro de fronteiras físicas, a traição de uma Europa podre, a aproximação da vingança, o isolamento, a fome, a definição grosseira e paternalista dos pobres: dizemos deles não apenas que não têm sustento – o que é dito na cobardia da não verbalização é que são gente definida pela sua incapacidade.

É hoje o tempo que se conta do fragmento e não da história inteira e isso é como uma gestão divina mentirosa da eternidade. Por isso a nossa vida é feita destes pequenos esquecimentos terapêuticos. E essa eternidade é asséptica.

Chegará o dia em que as vozes sem eco sairão do lugar da paciência. As vozes sem eco, caladas pela balbúrdia desta Europa, sairão do lugar da paciência.

Os momentos de coesão são aparências, tanta gente a bater palmas no instante em que quem torna, numa fuga cheia de sangue, um lugar provisório, grita por desespero germany, germany. Palmas, palmas, a bocados de desespero, era perguntar-lhes o que é isso, Deutschland?, e ficaria a descoberto o arame das fronteiras que os expula e que nos expulsa.

(E a nossa pátria é a nossa língua?)

A crisálida só tem um destino.

“Hoje” sabemos da catástrofe e da explosão iminente, sabemos das gentes que as luzes escolhem apagar, sabemos da impaciência de uma multidão exilada entre nós. Sabemos e não dizemos disso. Não usamos as palavras certas. Ou não ousamos.

O Rui Nunes ousou.