Siga-nos

Perfil

Expresso

O legado de Almeida Santos: Maria Antónia de Almeida Santos

  • 333

Esta semana ficou marcada por marcar para sempre este nome: Almeida Santos.

As homenagens serão sempre poucas. Teria de se encher todas as bibliotecas, reais e irreais, para reunir as palavras, que seriam pequenas, as palavras a dizerem de uma figura oleira da República democrática.

Hoje, vou recordar a palavra com que sempre acabava cada conversa que iniciava comigo: a palavra era coragem.

Hoje vou inscrever neste texto um dos seus maiores legados, que o transpira na sua autonomia, que o repete na sua singularidade, que o recorda na sua própria pele, que o eterniza na sua própria individualidade.

Esse legado tem nome de mulher. Chama-se Antónia, a sua filha.

Maria Antónia de Almeida Santos, uma das minhas rochas, um encantamento com a tal da coragem, uma amizade que o destino teceu replicando a amizade de décadas dos nossos pais. Não foi apenas a amizade que foi replicada ou, melhor dizendo, é parte da nossa empatia a forma de amar os nossos pais. A Maria Antónia, esta semana, passou pelo dia que mais temo na minha vida, pelo dia que ambas dizíamos mais temermos nas nossas vidas.

É um dos legados maiores de Almeida Santos. Na sua personalidade única e irrepetível, também ela é uma causa em si mesma, também ela defende o outro sendo o outro, também ela olha os direitos humanos – como as várias formas de aceder à maternidade – sem tréguas nem atavismos: com a tal da coragem e a visão de futuro.

É um dos maiores legados de Almeida Santos. A Deputada e a mulher Maria Antónia de Almeida Santos carrega em si e projeta para o mundo a repulsa pela condição secundária e padronizada do género feminino. Foi o seu pai, pela sua pena que articulava qual artista, o obreiro do Código Civil pós-ditadura e, por isso, da concretização da emancipação legal das mulheres, envoltas num manto escuro durante o fascismo.

Hoje, Maria Antónia de Almeida Santos, com o seu singular modo de ser, quer mais e exige mais, não se resigna e luta, com a tal da coragem e com o sorriso herdado e feito seu.

A luta permanente de Almeida Santos pela dignidade de todas e de todos é perpetuada pela minha rocha, nomeadamente na área da saúde, que defende como socialista, não por herança mas por escolha própria, o que acabou na mais bela das comunhões: pai e filha, também camaradas, resultado da liberdade e não do sangue.

A Maria Antónia é a dignidade, é a generosidade, é o combate, é a elevação, é a lealdade poética, é a cultura sem elitismo, é a democrata orgulhosa da casa da democracia, do trabalho que se vê e do trabalho duríssimo sem o olhar público, mas cumprido – é a sua única exigência.

A Maria Antónia é a independência, é a fraternidade, é a inovação, é a inquitude, é a amizade mais generosa que alguém pode ter a sorte de encontrar e tem o humor cúmplice e apurado de um Eça melhorado e o mundo inteiro devia saborear uma das suas garagalhas com lágrimas a escorrerem-lhe pelos olhos.

Dizia-me Almeida Santos:

“Gosto tanto, tanto da minha filha. Nunca me larga”

E sorria.

Como ele apenas.

Como apenas eles.