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Expresso

Duas saídas sujas

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O CDS votou contra o orçamento retificativo exigido perante a situação do BANIF pela qual foi corresponsável. Bonito.

A solução encontrada é fruto de várias não-decisões do último governo, desejoso, sem dignidade, de ganhar as eleições e com a ajudinha da Europa.

Que me recorde, o CDS fazia parte desse governo de coligação e Portas era vice-primeiro ministro.

O governo PSD/CDS decidiu injetar 700 milhões de euros no BANIF, quando a CGD ainda podia receber ajuda do Estado, tal como decidiu, num banco com 60% do capital nas mãos do Estado não ter – pasme-se – um administrador executivo. Tivemos antes um administrador que saltou diretamente da supervisão para o BANIF. Bonito.

A carta entre a comissária europeia e o ex-governo é uma das provas de um acordo de cavalheiros pouco cavalheiros para esconder uma saída suja pintando-a de limpa. Havia eleições. Bonito.

Sabemos hoje que 8 soluções foram recusadas e que em Março o governo Passos/Portas beneficiou do silêncio cúmplice da comissão europeia. A situação surge quando os cúmplices descobrem que Passos não viria a ser, afinal, primeiro-ministro. Bonito.

O BANIF desvalorizou 97% entre a decisão de Passos supra referida e a tomada de posse de Costa mas, no debate parlamentar, PSD e CDS descobrem a pólvora: não foram anos de governação furtiva; foi a TVI há uns dias. Bonito.

O que seria possível agora a Costa chamado a resolver a fatura intencional de Passos/Portas? A liquidação do BANIF? Custaria 4 milhões de euros e todos os empregos. Ficar com o BANIF? Integração na CGD? Tarde de mais, já não é possível (já foi) de acordo com as regras europeias. Ir aos depósitos? Isso seria destruir a economia da Madeira e dos Açores.

Toda a gente entende, assim, que o atual Governo tomou a única decisão possível perante uma irresponsabilidade politicamente criminosa que o antecedeu.

O governo Passos/Portas sempre foram os campeões da adesão ao programa da Troica. Queriam mais do que o programa. E refugiaram-se nele para em conjunto com a Troica não hesitar em cortar salários, pensões, SNS, escola pública, justiça, prestações sociais. Não hesitaram em privatizar para além do exigido. Era todo um programa com o rótulo da “não alternativa” que deixou o país pobre, desempregado, emigrado, socialmente desfigurado e envergonhado.

Calha que no programa de assistência financeira havia 12 milhões para serem aplicados na estabilidade do sistema financeiro. Quanto dessa verba foi aplicado? Nem metade.

Isto revela tudo do Governo Passos/Portas. Trataram de limpar os “péssimos hábitos” dos portugueses que “viviam acima das suas possibilidades”, com os resultados já descritos, e vergaram perante o sistema financeiro. Não foi este que ficou em crise, mas um governo amoral, indigno, que para além de mentir para ganhar votos, preferiu aumentar a pobreza a aplicar dinheiro que tinha no bolso para disciplinar quem realmente anda indisciplinado.

Passos sabe que faria o mesmo que Costa e por isso absteve-se com vergonha merecida. Mas o CDS fez pior: escolheu o momento da solução do BANIF para começar a sua autonomização do PSD e votou contra o orçamento retificativo, como se não tivesse sido parte do Governo responsável por esta bomba.

A saída de Paulo Portas da liderança do CDS não me diz respeito. Mas não deixa, como pensa, um CDS que se veja ao espelho sem corar.

O último governo teve uma saída suja, não apenas pelo buraco do BANIF escondido dos eleitores, mas por estar provado com isso ter representado o Estado de forma imoral: saída suja e suja. E o CDS estava lá.