Siga-nos

Perfil

Expresso

Cavaco - o oráculo da morte da política

  • 333

Disse Cavaco: “observando a zona euro, verificamos que a governação ideológica pode durar algum tempo, faz os seus estragos na economia, deixa faturas por pagar, mas acaba sempre por deixar faturas por pagar”. Mais acrescentou que “a ideologia económica só resiste como modelo de vida de comentadores, de analistas políticos, de articulistas que fazem o deleite de alguns ouvintes, de alguns leitores, em tempo de lazer”.

Nestas vestes de comentador de direita, de analista de direita, de articulista de direita que faz o deleite da direita que sempre protegeu, de alguns leitores de direita em tempo de lazer pragmático, Cavaco, para além de fazer de tudo menos de Presidente da República, foi o oráculo da pior tese que contamina a política, quer nacional, quer europeia.

Esta obsessão pela morte das ideologias pela via da exclusividade do pragmatismo é a morte da democracia.

A democracia nasce, desenvolve-se, e vive quotidianamente de escolhas. E essas escolhas são, e devem ser, precisamente, ideológicas.

Optar entre defender a não flexibilização do mercado laboral, optar por defender a gestão pública de sectores estratégicos do Estado, optar pela defesa intransigente de um serviço nacional de saúde universal e púbico, optar pela defesa de uma escola pública como motor de desenvolvimento e de igualdade, optar por um sistema de pensões público, optar por uma atitude patriótica no nosso relacionamento com a UE, optar pela valorização da cultura, optar pelas prestações sociais comprovadamente mais eficazes no combate ao flagelo da pobreza, optar pelo papel do Estado na criação de condições para a criação de emprego, optar pela decisão governativa de subir o salário mínimo não arrastando a concertação social, optar pela defesa dos direitos das minorias, entre tantas opções, é sempre optar ideologicamente.

As opções opostas que vivemos nos últimos quatro anos foram opções ideológicas. Dar prevalência ao capital sobre o trabalho, dar preferência à escola privada sobre a escola pública, sabotar todas as decorrências do Estado social, propor a privatização parcial do sistema de pensões, privatizar furiosamente em modo de horror a tudo o que fosse empresa pública, mesmo a que apresentasse lucro, desinvestir na saúde pública, criar falsos estágios, relacionar-se com a UE sem qualquer sentido patriótico, vilipendiar os funcionários públicos, criar fraturas sociais numa tentativa de destruir a coesão entre novos e idosos, entre trabalhadores do setor público e do setor privado, entre jovens e jovens, destruir a classe média, esse motor de alavancagem da pobreza, empobrecer e, assim. calar o país, defender um modelo único de família, entre tantas opções, foi sempre optar ideologicamente.

A luta pela democracia foi também a luta pelo confronto livre de ideologias e estamos a assistir a um caminho perigoso de apagamento que pretende fazer da política um espaço apolítico. Na verdade, um pântano, no qual ser-se democrata-cristão, socialista, comunista, defensor de diferentes correntes filosófico-políticas e sim, também económicas, é ser-se um embaraço aos que querem pôr um ponto final à exigência primeira da liberdade e da democracia, essa da clarificação, essa de cada um dizer ao que vem, de onde vem, qual o seu espaço e assim clarificar as tais das escolhas.

O “pragmatismo” sem mais defendido por Cavaco mais não é do que uma estratégia política, uma visão pobre e retrógrada da política, uma adesão ao pântano que vem destruindo os mundos nacionais e internacionais e o adormecimento dos povos. Porque Cavaco é, de facto, pragmático. E nele pode ver-se o horror dessa escolha.