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Expresso

Capa explosiva do Independente

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Imaginem que o jornal “O Independente” ainda existia.

Agora imaginem que o diretor do mesmo apanhava uma escuta telefónica na qual se ouvia o líder do CDS a propor furiosamente ao primeiro-ministro que tratasse de convencer o secretário-geral do PCP, partido que lhe dá apoio parlamentar, a, por sua vez, dar umas “ordens” à CGTP-IN (uma organização sindical), de maneira a que esta, por seu turno, “impedisse” a realização de greves.

Se isto acontecesse teríamos uma das mais violentas capas do jornal “O independente”.

E teríamos um sobressalto cívico. Então um líder de um Partido tinha-se atrevido a propor furiosamente ao primeiro-ministro que este manipulasse o líder de outro partido (ou fizesse um acordo com o mesmo) com a finalidade de condicionar a liberdade sindical e o direito à greve dos trabalhadores? Em democracia?

Acontece que Paulo Portas fez isto mesmo, em voz alta, na casa da democracia: exigiu furiosamente ao primeiro-ministro de Portugal que fizesse o acima descrito, o que foi tomado e, bem, como insulto por parte de António Costa. Um insulto ao Chefe do Governo, um insulto ao PCP, um insulto à CGTP e um insulto aos direitos dos trabalhadores.

O que releva daqui não é o episódio. O que releva daqui é o que sustenta o episódio, de resto verbalizado por Portas, mas secundado entusiasticamente pelos aplausos do CDS e PSD inteiros.

Ora, o que sustenta o episódio é a direita que temos. O que sustenta o episódio é a confirmação despudorada de que o PSD da social-democracia ou o CDS da democracia cristã suicidaram-se e sim, confirmam todos os dias, como neste episódio, que o ataque desnecessário, contraproducente, insensível que desferiram no mundo do trabalho, nos reformados, nos pensionistas, na classe média, nas prestações sociais que realmente atacam a pobreza (como o RSI) foi um ataque desejado, apoiado nas novas vestes ideológicas de uma direita fascinada com o liberalismo selvagem e com o capitalismo repressivo.

Não tiveram de cortar pensões ou salários. Quiseram cortar pensões e salários. E se hoje os cortes não foram definitivos e a esquerda repõe o que foi literalmente um assalto a vítimas de experimentalismo, isso deve-se ao Tribunal Constitucional.

Não admira, pois, a postura do PSD e do CDS em cada debate. As intervenções dos deputados de uma direita desfigurada a envergonhar os seus fundadores baseiam-se em graçolas, na repetição até ao infinito da palavra “geringonça” – mesmo nisso negando insistentemente a democracia (que passou a “geringonça”) – e no desprezo profundo, assumido numa fisicalidade de ódio, por todas as medidas que envolvam a palavra “trabalhadores”.

É aqui que bate o ponto. Para esta direita não há paraíso na terra enquanto existir contratação coletiva; não há paraíso na terra enquanto existir sindicalismo; não há paraíso na terra enquanto existir “trabalho” como um “direito fundamental”; não há paraíso na terra enquanto existirem funcionários públicos, em relação aos quais construíram um discurso de pré-extinção ao lançar sobre os mesmos um rótulo de inimigos dos privados; não há paraíso na terra enquanto existirem trabalhadores que exerçam o direito à greve; não há paraíso na terra enquanto existir direito à greve; não há paraíso na terra enquanto existir uma empresa nas mãos do Estado; não há paraíso na terra enquanto existir uma escola pública a “prejudicar” uma privada; não há paraíso na terra enquanto existir essa mania da saúde ser mesmo um serviço “universal” e “tendencialmente gratuito”; não há paraíso na terra enquanto existir essa mania constitucional de “todos”, sim, “todos” terem direito a uma segurança social pública.

Quando Portas verbaliza no parlamento em forma de exigência a violação da democracia, poderíamos pensar que aquilo só por telefone e em sendo apanhado daria uma grande primeira página de um jornal como “O Independente”. Mas sabemos que o que nos segura contra esta direita é precisamente o seu despudor. Diz em voz alta ao que vem. Confessa de onde veio.

A voz foi de Portas. Naquele episódio. Foi aplaudido por toda a direita. Dá uma capa de jornal, sim. Mas o que releva do episódio é o que vemos todos os dias. Um PSD e um CDS que hoje, em 2015, vota contra o capítulo constitucional dos direitos económicos, sociais e culturais e contra os dos direitos dos trabalhadores. E confessa que fez o que nos fez porque é assim.