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Expresso

Recordar à direita conceitos banais

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Por estes dias continuamos a ouvir argumentos desesperados a navegaram contra a realidade. A apagarem a realidade. A realidade banal é simples e os portugueses já a compreenderam, precisamente porque a desejaram: a maioria esmagadora dos votos expressos no dia 4 de outubro converteu-se num quadro parlamentar que maioritariamente representa a vontade daqueles votos – a viragem da política da austeridade; Passos Coelho foi indigitado primeiro-ministro e não conseguiu criar condições parlamentares para uma maioria de governo estável; o seu governo foi demitido através de uma democrática moção de censura aprovada pela maioria absoluta dos deputados representantes do povo que foi às urnas; quem demitiu o Governo que se encontra, portanto, demitido, foram os Partidos políticos que encontram, no quadro da normalidade política e constitucional, uma solução de governo alternativa.

Vamos a ela.

Também quanto a este ponto a imaginação da direita tem sido surpreendente. A direita e os seus ideólogos fingem não saber o que é um Governo de incidência parlamentar e entretêm-se a fingir que não há um governo demitido e a escrutinar os acordos entre PS e PCP/ PS e PEV e PS/BE. Com paciência, é bom enumerar as novidades de uma ciência política inventada e retomar ponto a ponto a normalidade.

1. Diz a direita que os acordos são três e que devia ter havido um só.

Manda a incredulidade perguntar onde foi a direita, tantas vezes coligada sem qualquer acordo, encontrar tal requisito. Precisamente por estarmos perante negociações com três partidos nada mais transparente do que revelar o que foi proposto por cada um e verificar, no final, que não há qualquer contradição entre os mesmos.

2. Diz a direita que a alternativa de um Governo do PS com o apoio parlamentar do BE, do PCP e do PEV só faria sentido se na estrutura do governo existissem ministros dos Partidos referidos. Já ouvimos mesmo, com paciência, falar em cobardia de quem não vai para o Governo.

Manda a incredulidade perguntar a que manual de ciência política ou de direito constitucional foi a direita encontrar um conceito de governo de um Partido – repita-se, de um Partido – com o apoio parlamentar que lhe garante uma legislatura estável e duradoura, que comporte esse estranho quesito, a saber: quem tem o papel de suportar no Parlamento um Governo tem de integrar esse Governo (?!).

Mas afinal o que é um Governo de incidência parlamentar? Estamos a falar de um Governo do PS com o apoio parlamentar do BE, do PCPe do PEV. Por quê a diabolização da banalidade? De onde a descaracterização de um conceito para o rebaixar a um acantonamento de juízos morais?

3. Diz a direita que o Governo alternativo liderado pelo PS não tem consistência. Baseia-se nos acordos, acorda fantasmas, foices e martelos, mais uma vez num acantonamento violento do outro que é participante legítimo da democracia, e resume a crítica a adjetivos, como geringonça.

Manda a incredulidade perguntar de onde o descaramento de fingir-se não saber da existência de um programa de governo do PS aprovado pelos órgãos próprios, programa esse que integra as alterações resultantes das negociações à esquerda vertidas em acordos transparentes, programa esse com um quadro macroeconómico revisto e demonstrativo do cumprimento de todos os compromissos internacionais.

Quanto mais a direita eleva o grau de mentira e de apagamento sobre a realidade, mais contribui para a sua própria degeneração. Assuma-se como democraticamente demitida e honre o seu papel na oposição que o povo lhe reservou.