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Expresso

A questão é o novo paradigma

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Estamos a viver o momento político mais fascinante das últimas décadas. É-o porque está em causa uma mudança de paradigma, aconteça o que acontecer no final deste processo em curso, expressão de resto apropriada.

O único interesse que releva das discussões acesas sobre a (i) legitimidade de uma solução governativa maioritária de esquerda, das discussões acerca do que foi ou não foi dito no período eleitoral, das acusações imediatistas, é o do substrato dessa discussão assustada por parte da direita.

O substrato é o medo usado conscientemente como arma.

Toda a gente sabe que a legitimidade daquilo a que se vem chamando, com intenção, de frentismo de esquerda, é inquestionável; toda a gente sabe de exemplos atrás de exemplos de países da UE em que o primeiro-ministro empossado não liderou o partido mais votado, nem mesmo o segundo mais votado; toda a gente sabe que o voto, em Portugal, não é nominal; toda a gente sabe que PSD e CDS já fizeram coligações pós-eleitorais; toda a gente sabe que já tivemos um primeiro-ministro (Santana Lopes) designado sem quaisquer eleições.

O que não se sabia – e é esse o novo paradigma - era ser imaginável que a exclusividade de coligações maioritárias não pertencesse à direita.

O momento histórico que estamos a viver é histórico precisamente por isso: independentemente do que venha a acontecer, hoje sabemos - o país, a direita e cada um de nós -, hoje sabe-se que o muro intransponível entre os partidos de esquerda, sobretudo entre PS e PCP ruiu.

O nervosismo da reação da direita e dos comentadores de serviço, a invocação do risco de catástrofe nos mercados que se dão mal com alegados extremistas e passaram a ser mais legitimadores da democracia do que o nosso voto, prova a tomada de consciência de que o paradigma mudou.

Aconteça o que acontecer, morreu o anacrónico conceito de arco da governação; aconteça o que acontecer, ainda que com a beleza da incerteza, há a perceção de que em 2015 não podemos continuar presos a divisões que marcaram o pós-25 de Abril, porque a realidade mudou e nunca mais em nenhum acto eleitoral poderá a direita contar com a antiga certeza da incomunicabilidade entre a esquerda e, consequentemente, com a exclusividade das coligações de governação.

O novo paradigma releva também para uma consciência adormecida da igual dignidade de cada voto, de cada eleito, de todos os partidos representados na Assembleia da República. Em 2015, deixou de ser desprezada, por quem está empenhado nisso, a voz à esquerda do PS, porque calar nas chamadas conversações (metáfora caluniosa para apelidar o regular funcionamento da democracia) um milhão de portugueses que votaram PCP e BE é, agora, com visibilidade assombrosa, um descaramento.

Por outro lado, aconteça o que acontecer, morreu, também, o discurso das alternativas fechadas, porque a ausência de alternativa interiorizada, até hoje, no sistema, é e foi sempre um elemento de pobreza da democracia.

A raiva, a fúria, a expressão traição ao eleitorado, não têm interesse algum no discurso oral; têm todo o interesse no discurso mudo que as suporta, esse que já se apercebeu que o modelo político necessariamente binário acabou.

Aconteça o que acontecer, todos terão de lidar com o que já aconteceu, os tais muros quebrados, a evidente sentença de morte da garantia bancária da direita de que maiorias absolutas só se fazem consigo, a não correspondência entre os conceitos usados desde 1975 e a realidade social e política de 2015.

Estamos certos do presidente da república que temos. Chamando o presidente do seu partido, sem ouvir os demais, antes de apurados os resultados eleitorais finais, e em desvio à Constituição, encarregando o PS - num resumo simples - de apoiar a coligação que este partido combateu nas eleições, claramente não sabe o que é a igual dignidade de cada voto.

Ou, reformulando, exatamente por se ter apercebido das novas consequências dela, apressou-se a colocar o seu projeto pessoal no papel de travão a fundo da democracia.

Acabo como comecei: estamos a viver o momento político mais fascinante das últimas décadas. É-o porque está em causa uma mudança de paradigma, aconteça o que acontecer no final deste processo em curso.

Custa que a democracia, com a riqueza das novas alternativas dentro dela, leve com uma guerra no seio do próprio sistema intitulado de democrático.

Tinha para mim que a democracia não incomoda democratas.