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Expresso

O tempo passa devagar

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Para quem sofre. Não, o tempo não passa depressa. A vida não é um instante. O sofrimento é uma eternidade. Cada dia de privação do próprio dia é a eternidade da sobrevivência.

A política, por isso, não é feita pela economia.

A política é feita de escolhas, de prioridades. Depois, a economia, o quadro que sustenta essas escolhas é a despensa de uma casa maior, essa cuja porta da frente diz a que vem cada um que se propõe governar.

É isso e só isso que está em causa nestas eleições dramáticas.

A despensa do PS está feita e arrumada.

O mais importante é sabermos quais são as prioridades do PSD/ CDS e do PS

Não é verdade que não seja importante discutir o passado: estes quatro anos, a legislatura que vai a julgamento. Porque esse passado, para além de ser um indicador do comportamento futuro da direita coligada, é o presente das pessoas de hoje.

Essas pessoas são o centro da prioridade do PS. São as tais para quem a vida tem sido longa, porque lhes privaram a possibilidade de cada dia não ser a privação do próprio dia e vivem na eternidade da sobrevivência.

Ouvem na televisão, nos telejornais, estatísticas, vêm-se enfiadas em folhas com curvas de três meses, como que diluídas, como que ignoradas no que não lhes foi privado – a inteligência.

Cada reformado e cada pensionista sabe que trabalhou uma vida inteira e que a segurança garantida por lei e pela dignidade do Estado foi assaltada, ouvindo que assim por pouco mais de 600 euros tinha de pagar o preço dessa coisa, o défice.

Sabe que viveu quatro anos sem confiança no mês seguinte, em sobressalto, apelidado de grisalho, com um Tribunal Constitucional a dizer-lhe: a tua dignidade não se chama défice e com um governo a insistir uma e outra vez em caluniar que o defendeu e a cortar-lhe o final de vida.

Cada mulher e homem da classe média sabe que os impostos que lhes foram exidos não cumpriram objetivo patriótico algum; antes sugaram as suas vidas, e, com elas, as dos pobres. Sabem que vivem o que nunca pensaram viver: penhoras, desemprego em idade de não retorno, contas congeladas, dívidas amontoadas, medo de abrir a caixa do correio, medo do selo a dizer finanças.

Cada estagiário que se ouve a si próprio nas estatísticas da alegada decida do desemprego, tem nome e sabe que o seu trabalho não é digno e que voltará, com gigantesca probabilidade, à condição de total e absoluto desemprego. Sei do insulto que muitos deles sentem ao ouvir Paulo Portas, na sua retórica, dizer prefiro um estágio a uma situação de desemprego, porque gostariam de perguntar ao orador porque não vai mais longe no desumano raciocínio: prefiro um ordenado de 10 euros a um trabalho sem remuneração, ou mesmo prefiro um trabalho retribuído com comida do que a escravatura.

Cada desempregado sabe que está desempregado. Sabe que nos 200 mil postos de trabalho destruídos nestes quatro anos estão lá 200 mil nomes, 200 mil rostos, o seu nome também. Não quer saber da estatística de ontem ou de de há quatro dias, quer saber se é prioridade para alguém. Se o combate contra o desemprego não é apenas um combate pela economia, mas um combate pela sua dignidade enquanto ser humano.

Cada pessoa que trabalha e continua pobre também quer saber quem chama a isso trabalho, e quem quer fazer alguma coisa para pôr fim à imoralidade do fator trabalho ser um fator de pobreza.

Cada pai, cada mãe, que vê a escola pública dos seus filhos com menos funcionários, menos auxiliares, com turmas aumentadas, sabe que isto é um plano para justificar os alegados maus resultados induzidos ao porto seguro e igual para todos e despejar dinheiro nas escolas privadas.

Cada cidadã e cada cidadão que tinha o Estado ao pé de si, ao seu serviço, o seu tribunal, o seu hospital, e agora esgota-se em longas esperas por um documento, pela sua justiça, por uma urgência médica largada num corredor de poucas camas, sabendo terem sido providenciadas tantas a hospitais privados, não precisa de estatistas para saber a verdade.

A degradação do Estado social foi um plano despedindo quem o servia, na propaganda de que estavam a mais, privatizando o que era nosso, esquecendo quem estava longe, esperando que a lonjura torne longe um eco de protesto.

Cada pessoa que está entre os dois milhões de pobres, que tem fome, que tem frio, que tem a vida tão dolorosamente longa, que se vê vítima da arma cobarde dos fracos fortes, esses que empobrecem um povo – virtuosamente, não era? – porque empobrecer é a arma mais forte para calar a boca a esse povo.

É isto que está em causa no dia de votar. A prioridade do PSD/CDS e a prioridade do PS

Do PSD/CDS não conheço programa, o que talvez seja a melhor forma de o conhecer. Porque quem estrategicamente não fala nos últimos quatro anos sabe do que fez, sabe o que destruiu: fez cair uma bomba atómica sob a estrutura base de um país a pretexto da não alternativa, afinal uma oportunidade bem aproveitada para pôr em prática a lei do mais forte, o imperativo do cada um por si, a guerra entre gerações e classes profissionais, a venda do país a saldo, o desprezo pelas garantias da igualdade e da liberdade de todos: a escola pública; o Serviço Nacional de Saúde de qualidade e público; um sistema de segurança social estável, público e livre de assaltos de políticos fora da legalidade constitucional; a quebra do consenso de que trabalho barato e instável é indigno, retrógrado, reacionário e contraproducente; a destruição das prestações sociais como o complemento solidário para idosos ou o rendimento social de inserção; e, finalmente, o insulto da justificação, essa da alegada culpa coletiva de um povo que viveu acima das suas possibilidades e que é piegas.

Podemos concordar, discordar com este ou aquele ponto do programa eleitoral do PS, que pelo menos existe, como se exige em democracia.

O ponto é que as prioridades do PS são claras: as pessoas primeiro; o trabalho com significado, com dignidade; a erradicação da pobreza; a defesa intransigente do Estado social, da nossa escola pública, dos nossos serviços públicos, da nossa justiça, do nosso direito à saúde pública com qualidade; a quebra da asfixia fiscal das famílias e das empresas; a estabilidade da pensão e da reforma de cada um; a igualdade de todos os homens e de todas as mulheres sem discriminações.

Estas prioridades resumem-se a duas palavras: pessoas e dignidade.

É essa a escolha que está em causa. A continuação do radicalismo que se arrepende de não ter tornado ainda mais barato o teu salário ou uma alternativa cuja prioridade são as pessoas e a sua dignidade.

Porque a vida deve ser longa porque é vida. Não pode ser longa porque é sobrevivência.

Votar no PSD e no CDS e não votar PS é desistir. E mesmo quando as forças estão no limite, naquele dia em que se está a escolher entre medicamentos e comida, haja a esperança de uma réstia de força para se chegar ao boletim de voto.