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Expresso

A disciplina obscena da direita

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Muitas vezes sou confrontada com a piada antidemocrática, de quem não entende o que é um Partido livre e plural, concretamente com a frase o PS está dividido porque x ou y fizeram declarações parcialmente discordantes com o SG. Basta isto para aparecer o grito eufórico dos colecionadores de jornais a clamar o PS dividido.

Curiosamente, essas vozes sem substância são as mesmas que encerram um anticomunismo primário, situado em 1975, incapazes de darem um salto para a contemporaneidade, sempre acusando as regras do PCP, internamente aprovadas, de disciplina partidária.

Numa atitude bipolar, não difícil, mas demasiado fácil de acompanhar, são o oráculo contra o PCP que não tem vontades individuais, mas apenas uma vontade coletiva e disciplinada, uns safados, portanto.

Esta gente é sobretudo do PSD, e na prática acompanhada pelo CDS. Anotam nas margens dos jornais, que colecionam, factos banais para um socialista, como votar livremente contra a orientação não vinculativa da bancada (acontece variadíssimas vezes, o que é valorizado dentro da pluralidade de um Partido livre).

Lendo as atas da AR ficamos a saber que o reputado constitucionalista e ex- juiz do TC votou a favor da chamada lista de pedófilos para logo a arrasar numa declaração de voto, acusando a proposta de inconstitucionalidade, com fundamentação exaustiva, na linha dos inúmeros pareceres que Paula Teixeira da Cruz ignorou.

Aprende-se com a declaração de voto, mas não se percebe como é possível que o Partido que afirma como o palco da unidade contra os Partidos desunidos ou os Partidos de voz única impõe disciplina de voto sobre uma matéria crucial de direitos fundamentais. Mais não se compreende como é que Deputados como Paulo Mota Pinto preferem a disciplina à consciência jurídica, livre e ética.

Eis então o Partido da unidade livre.

O mesmo que impôs a disciplina de voto num referendo inconstitucional sobre a coadoção em casais do mesmo sexo, num ataque jamais visto a crianças concretas, e todos assistimos aos Deputados e Deputadas que sabíamos serem contra aquele horror a obedecerem qual carneiros e a desdobrarem-se em declarações de voto, que talvez os tenham feito dormir melhor, mas que não aliviaram em nada o insulto aviltante a crianças eventualmente sujeitas ao escrutínio popular.

É o mesmo PSD cheio de jovens na primeira fila, sem aflição alguma com a discussão acerca de um possível processo disciplinar a aplicar a um histórico do PSD, Guilherme Silva, que teve o atrevimento de votar contra o OE.

É o mesmo PSD que nas suas bancadas tem advogadas e advogados, alguns, em confidências, assustados com a inimaginável tutela de mérito que Paula Teixeira da Cruz quer impor à Ordem dos Advogados, mas disciplinados a votar a favor, porque representam o Partido e não o povo.

Talvez seja tempo dos medíocres colecionadores de declarações de homens e mulheres livres, famintos por trocar a liberdade por fratura, refletirem sobre a casa onde hoje habitam, esse PSD esquecido que cada Deputado, constitucionalmente, representa o povo.

E é livre.