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Chamem-me o que quiserem

Vamos chamar nomes ao Governo?

Henrique Monteiro

Sempre me admirei com as teorias da conspiração. Lembro-me bem delas durante o Governo do Bloco Central. Um dia, nesses idos de 1983 a 1985, um quadro do PCP quis convencer-me de que Mário Soares provocava propositadamente a fome na península de Setúbal para melhor dobrar a classe operária da cintura industrial de Lisboa (na época havia indústria). Fazia-o por imposição do FMI, que não era mais do que um braço da CIA, a qual, a mando do governo americano, prevenia assim o glorioso comunismo que havia de iluminar o mundo.

Eu, conhecendo Mário Soares, dizia-lhe que a ideia não fazia qualquer sentido. O então secretário-geral do PS e primeiro-ministro jamais pretenderia que alguém passasse fome. Pelo contrário, os políticos querem que o povo seja feliz e gostem deles. Mas não o convenci.

Passados 30 anos este tipo de discurso mantém-se inalterado. As motivações do Governo, aja ele bem ou mal, são sempre tortuosas, guiadas por interesses inconfessáveis, subsidiárias de interesses estrangeiros. O Governo jamais pretende o bem dos outros ou o bem do país - algo que é sempre reserva da oposição, seja ela qual for. Nos comentários da internet (e mesmo nos jornais e no discurso político) os membros do Governo são tratados por gatunos, por terroristas sociais, por incompetentes terminais.

Não nego que haja gatunagem, alguma chantagem e bastante incompetência. Mas penso que, em alturas de crise agudíssima como a atual, as pessoas responsáveis - tanto as que já o foram, como as que são (e incluo os jornalistas e os opinadores nesta categoria) - devem moderar-se. Deitar gasolina para a fogueira pode dar votos, criar likes no Facebook, tornar textos virais e mesmo fazer bem ao fígado. Mas é a forma mais direta de vivermos sob uma imensa demagogia, numa vida de mentira que jamais resolverá um problema.

Olhemos o passado e retiremos as lições devidas. Muitas ideias que hoje se colocam como prementes e brutais estavam diagnosticadas há décadas. Há muito tempo sabíamos que iríamos ter problemas, mas devido a esse misto de demagogia e cobardia jamais as implementámos. Esbarrei ontem com um texto que escrevi em 23 de outubro de 1999, no Expresso, no qual, a dado passo, dizia:  "Reformas de 800 contos mensais ou superiores (4000 euros) não são exageradas? Pode argumentar-se que, quem assim ganha, descontou muito para o sistema. Mas o Estado deveria privilegiar o apoio aos necessitados e, simultaneamente, a responsabilidade individual. (...) Porque quem tem dinheiro e vive bem tem o dever e a responsabilidade individual de precaver o seu futuro e o da sua família."

Isto prova que há 14 anos já andávamos de volta do problema... E que ninguém o atacou a sério.

Agora, que não há soluções fáceis, torna-se demasiado fácil chamar nomes a quem tenta arranjar uma. Infelizmente, poucos se lembram de insultar os que conhecendo os problemas ficaram quietos. E ficaram porque os políticos, quando podem, gostam que gostem deles e são incapazes de tomar medidas racionais, caso estas afetem os seus eleitorados.

Pensemos também nisto, sem desculpar a parte de atabalhoamento, desprezo e falta de diálogo que este Governo tem demonstrado...

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