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TAP: Duas meias-verdades são iguais a duas mentiras

Passos e Costa entretiveram-se este fim de semana a debater se a privatização da TAP constava ou não do Memorando de Entendimento com a Troika. Passos disse que sim e Costa que não. O líder do PS para mostrar que dizia a verdade, apenas a verdade e nada mais do que a verdade rapou do papel e leu. Mas só metade do ponto em questão...

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

A metade que Costa omite é aquela em que se baseia Passos para afirmar que está lá tudo escrito. Mas estará? Vejamos o que diz o Memorando que é algo objetivo. Mas será objetivo? Ó diabo! Isto em Portugal é sempre muito difícil e, como se sabe, bastam dois advogados para haver três opiniões, bastando um único político para poder haver duas.

O Memorando diz o seguinte, no que toca à TAP: "O plano existente para o período que decorre até 2013 abrange transportes (Aeroportos de Portugal, TAP, e a CP Carga), energia (GALP, EDP, e REN), comunicações (Correios de Portugal), e seguros (Caixa Seguros), bem como uma série de empresas de menor dimensão. O plano tem como objetivo uma antecipação de receitas de cerca de 5,5 mil milhões de euros até ao final do programa, apenas com alienação parcial prevista para todas as empresas de maior dimensão" - eis ao que Costa se agarra.

Mas logo no período seguinte, que Costa não lê, mas Passos deve ter decorado, diz o seguinte: "O Governo compromete-se a ir ainda mais longe, prosseguindo uma alienação acelerada da totalidade das ações na EDP e na REN, e tem a expectativa que as condições do mercado venham a permitir a venda destas duas empresas, bem como da TAP, até ao final de 2011". O Governo, saliente-se, na data em causa era o Governo PS de Sócrates.

Que retiramos daqui? Desde logo uma coisa que andava esquecida; que o Governo de Sócrates também se comprometia a ir mais longe do que a troika, o que abala moralmente a crítica do PS ao Governo de Passos por ser - como dizem - "mais troikista do que a troika". Retira-se, ainda, que embora ambos digam meias-verdades, ambos mentem.

Costa mente porque omite que era intenção do Governo do seu partido (e ele era o número dois do PS) vender a totalidade das ações da TAP, se as condições de mercado o permitissem, até ao final de 2011. Ou seja, há já três anos.

Passos mente porque esse compromisso não é uma imposição da troika mas apenas um compromisso do Governo anterior, condicionado às condições do mercado.

Quem sai pior deste jogo? Ambos saem mal, mas não há dúvida que, como aliás disse Portas, o líder do PS deveria ler com mais atenção os papéis ou confirmar o que lhe dizem. E Passos, se tivesse um pouco de mais calma, poderia perfeitamente dizer que estava a cumprir um compromisso feito pelo Governo PS.

Porque a verdade não é difícil de atingir. Qualquer pessoa de boa-fé que leia o papelinho entende bem o que lá está escrito: que a TAP tem, por imposição da troika, de ser parcialmente privatizada e que o Governo de Sócrates queria ir mais longe e, tal como faria à REN e à EDP, privatizar totalmente a companhia.

Na verdade, PS e PSD estão até mais de acordo do que pensam. Podiam não tentar de fazer de nós estúpidos.