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Chamem-me o que quiserem

Henrique Monteiro

O governo já não tem poder

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Há notícias que me deixam atónito. Uma delas li-a ontem e o título era assim: "Pouca participação mas manifestações é um desafio ao sistema político". Ora bem, se fosse o contrário também era verdade. Se as manifestações contra a troika, em vez de terem umas meras duas mil pessoas tivessem dois milhões, seriam um desafio ainda maior para o sistema político, não será verdade?

Uma das organizadoras, de nome Mar Velez, acha que "as pessoas estão em estado de choque (...) e deixaram de acreditar no que quer que seja". Já Bagão Félix sustenta que estamos na fase da "desesperança", que é uma fase que sucede ao desespero" (gostava de compreender melhor a diferença de fases, já que desespero e desesperança são, segundo todos os dicionários, sinónimos absolutos - e juro que consultei cinco diferentes).

Outros comentadores são menos elaborados, dizem apenas que os movimentos como o "Que se Lixe a Troika" não apresentam nada de concreto ou que as pessoas "ainda não sentiram "o impacto no quotidiano das medidas previstas para o Orçamento de 2014".

Valha-me Deus! As pessoas andam a sentir o impacto da austeridade há anos!!

Os cidadãos sabem mais do que isto. Não são destituídos. Quando quiseram derrotar a TSU, porque pensaram ser possível derrotar a TSU, fizeram-no de forma cabal.

Podemos ensaiar, talvez, outra explicação. Por exemplo, a que Jurgen Habermas deu ontem numa conferência da Fundação Gulbenkian (na qual tive o gosto e a honra de ser relator), sobre os elevados níveis de abstenção em toda a Europa. Habermas não pensa que os votantes são burros ou lhes é indiferente a política. Para o filósofo alemão de 84 anos, que está na primeira linha da defesa da Europa e do seu Estado Social, as pessoas não votam porque têm "a percepção realista de que os Governos nacionais progressivamente perderam, com a globalização, o poder de melhorar as condições dos seus povos". 

Simples, não é? 

Se invertermos o raciocínio, podemos dizer que, afinal, quem vai às manifestações é que ainda tem ilusões sobre as possibilidades reais dos nossos dirigentes políticos. 

Ou então, tem motivos não explícitos para as realizar.

 

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