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José Silva Lopes: Um homem sábio e humilde

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Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

José Silva Lopes, que hoje faleceu aos 82 anos, depois de ter estado internado num hospital por uns dias, foi um dos grandes economistas portugueses. Mais do que economista, foi um humanista, um homem interessado em todos os aspetos da vida e da cultura do país. 

Conheci-o quando me convidou para fazer parte do Prémio Escolar Montepio, uma ideia que lhe era cara: premiar não as melhores escolas, mas algumas das piores que mais progrediam, as que estando no fundo da tabela mais subiam nos rankings. Do júri faziam parte, por escolha sua, o atual ministro da Educação, Nuno Crato (estávamos na época em que Maria de Lurdes Rodrigues era titular da pasta), o ex-ministro da Educação David Justino, Isabel Alçada, que viria depois a ser ministra e ainda o editor Guilherme Valente, um homem sempre interventor e polémico na educação. Mais tarde juntou-se ao grupo Manuela Silva, uma economista de talento e com um currículo invejável e, claro, Tomás Correia, que substituiu Silva Lopes na presidência do Montepio.

Silva Lopes, originário da zona de Ourém, entre Santarém e Leiria, perto de Fátima, tinha origens humildes. Sendo um homem essencialmente de esquerda, jamais se deixou enfeudar a ideias preconcebidas. Foi ministro das Finanças de um dos governos de iniciativa presidencial, após o 25 de Abril, e Governador do Banco de Portugal durante a primeira intervenção do FMI em Portugal, quando Paul Krugman, mais tarde prémio Nobel, combinou com ele a desvalorização deslizante do escudo, que mais tarde Cavaco Silva interromperia com resultados nefastos para a economia.

O seu cuidado com as escolhas sociais era criterioso. Ultimamente, com colegas como Manuela Morgado, publicava no 'Público' ensaios sobre uma possível solução para  os problemas económicos que o país vive. Não se importava de defender posições contra os seus interesses pessoais (como o corte de pensões elevadas) sendo nesse aspeto uma voz quase isolada.

José Silva Lopes foi, igualmente, dos poucos que previu a inevitabilidade de uma crise em Portugal. Sem o pessimismo de outros (como Henrique Medina Carreira), alertava para a insustentabilidade do sistema se não fossem feitas reformas. Não obstante, era um acirrado defensor do Estado Social.

Espírito livre e independente, com quem viajei milhares de quilómetros pelo país visitando escolas, foi um dos homens com quem muito aprendi. A sua humildade, o seu humor, a sua simplicidade e a sua cultura económica e geral, ficarão, certamente como exemplo e memória para todos os que com ele privaram.