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Expulsões e divisões - do PSD ao Bloco

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Penso que uma das características mais negativas do modo fazer política em Portugal é a intolerância. O mal não será só português, basta ver aqui ao lado em Espanha para se encontrar algo muito semelhante, mas é do nosso país que me vou ocupar.

Ontem foi notícia que António Capucho ia mesmo ser expulso do PSD. Que fez Capucho? Apoiou, numas eleições autárquicas, um candidato que não era apoiado pelo PSD. Vejamos, um pouco mais pormenorizadamente, o problema. Um partido tem os seus estatutos e neles estão os direitos e deveres dos militantes. Não contesto a legalidade - face aos estatutos - dessa expulsão. O que coloco em causa é estatutos partidários dessa natureza, que aliás são comuns à generalidade dos partidos. Por que motivo um cidadão ao apoiar, no geral, como sempre se faz, a mundividência, a forma de estar, os objetivos políticos de um partido, tem de estar de acordo com todos os atos que esse partido desenvolve? Um militante do PS, do PCP, do CDS ou do PSD têm de pensar, ou pelo menos não expressar o contrário, que o melhor candidato a Carrazeda de Ansiães, a Melgaço, a Castro Marim ou ao Alandroal é o nome proposto pelo seu partido? Não pode discordar? Não pode achar que o nome proposto por outro partido, ou por um movimento de independentes, como foi o caso de Capucho em relação a Sintra, é melhor? Não pode achar melhor para o país o terceiro nome da lista de outro partido do que o terceiro nome da lista do seu partido? Não o pode dizer? Não pode mesmo pensar que o líder de outro partido, num determinado momento histórico, serve os interesses do país melhor do que o seu próprio líder?

Nos EUA havia os democratas por Reagan (conjunto de apoiantes do Partido Democrático que apoiaram Ronald Reagan), como houve os Republicanos por Clinton. É normal! Não se impõe a militantes e membros que pensem como os aparatchiks, os burocratas e os dirigentes do seu partido. Isso é dar o poder não aos militantes, aos que formam o partido, mas aos seus líderes e aos seus acólitos e sacristães. É afastar dos partidos os espíritos mais lúcidos e independentes e ficar com a carneirada.

Veja-se o caso do Bloco, noutro lado do espetro político. As trapalhadas com o 3D e com o Partido Livre (independentemente do mérito daqueles movimentos); a recusa em negociar, em partilhar é a constante. Na substância, não é diferente do que faz o aparelho do PSD (como o do PS e o do CDS fazem também, neste último bastou-me ler um artigo de José Ribeiro e Castro para ficar elucidado de como Portas trata as minorias). E recorde-se que, neste aspeto, ninguém leva a palma ao PCP - anos recentes estão aí a prová-lo.

Os partidos têm tendência a tornar-se em prisões para os seus próprios militantes, recompensando a fidelidade com os tachos que podem. Estão muito longe de ser aquilo que se idealizava - clubes de debate, espaços de liberdade entre pessoas com visões semelhantes do mundo. A intolerância cataloga cada pessoa, cada cidadão, não pelo seu mérito, não depois de analisar e ponderar aquilo que cada um pensa, mas de um modo totalmente utilitário e totalitário: o que ele diz, o que ele faz é-nos benéfico ou prejudicial? E neste nós não está contido o país, mas apenas a pequena seita, o pequeno núcleo, o ínfimo eleitorado dos yes-men que aplaudem, ululantes, a repressão aos que ousam o delito de opinião, como dantes um pobre crente aplaudia os autos-de-fé da Inquisição.

Diz-se que quando o precursor da reforma Jan Huss, acusado de heresia pelo Concílio de Constança, foi queimado em Praga, em 1415, uma velhinha percorreu uma distância considerável para colocar, ela própria, mais galhos secos na fogueira que teimava em não arder. Foi quando Huss exclamou 'O sancta simplicitas' (ó santa ignorância"). Já estão a ver quem, nos nossos partidos, são hoje herdeiros daquela velhinha.

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