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Eusébio para o Panteão? Para já, não!

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Li que o líder parlamentar do Bloco de Esquerda (até esse) apoiava a ideia de vários outros partidos de trasladar Eusébio para o Panteão Nacional.

Apesar da unanimidade, permitam-me que diga que acho mal. Acho mesmo mal que tantos políticos e tantas personalidades falem assim, a quente, de uma trasladação para o Panteão Nacional. Nada tenho contra o facto daquele que foi o melhor futebolista português ter todas as homenagens possíveis. E até ponho a hipótese que um dia ele vá para Santa Engrácia, ou seja para o Panteão. Nada me move, nem questões clubísticas ou de outra ordem contra Eusébio - pelo contrário, acho que o país lhe deve muito. Mas penso que há algumas questões de princípio.

Primeiro é necessário definir claramente o que queremos do Panteão. Segundo, é imperioso que decorra algum tempo para sabermos quem deve e não deve ter essa honra. O Panteão (cujo nome advém da palavra grega que definia um templo onde eram adorados todos - pan - os deuses - theos) implica que não se tomem as decisões no calor da emoção.

Foi o que se fez (mal, do meu ponto de vista) com Amália Rodrigues. Na altura mudou-se a lei que exigia cinco anos sobre a morte do homenageado. Definiu-se que um ano bastava (o que significa que só em 2015 se pode decidir sobre Eusébio). E deixo esta pergunta - cinco anos depois da morte de Amália alguém exigiria que ele fosse para o Panteão? Admito que sim. Mas faltaria ainda o outro requisito: para que e para quem serve o nosso Panteão? Quem são os nossos deuses nacionais?

O nosso Panteão tem muita gente de que gosto - Almeida Garrett, João de Deus, Aquilino Ribeiro - alguma de que não gosto, como Óscar Carmona e Sidónio Pais. Tem também Amália, que é um autêntico 'ovni' no meio de escritores e estadistas. Mas tem muita gente que não está lá e devia estar, como Egas Moniz e José Saramago (que foram prémio Nobel), Vitorino Nemésio, Natália Correia, Sophia de Mello Breyner (como bem propôs há tempos José Manuel dos Santos) e, no campo político, uma vez que la repousam Humberto Delgado, Manuel de Arriaga e Teófilo Braga, além dos já referidos Carmona e Sidónio, talvez António Sérgio, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro, entre outros. Além de que um Panteão que se preze deveria ter também Pessoa, Eça e Camilo. Qualquer um destes nomes pode figurar em cenotáfio (representação da urna) como sucede com Camões, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral ou Afonso de Albuquerque. Bem sei que Pessoa está nos Jerónimos, mas se há deuses da escrita portuguesa ele é um deles, sem dúvida.

Se o Panteão serve também para desportistas, cantores e artistas diversos, proponho, no mínimo, Tomás Alcaide, Guilhermina Suggia e João Villaret. Haverá outros, com certeza, não tenho a pretensão de ser o decisor destes temas. O que defendo é que, em vez de andarmos a tratar de assuntos ao sabor dos ventos de paixões e emoções, criemos critérios e método.

Reafirmo nada ter contra Eusébio e provo-o. Quando com Rui Ochoa discutimos quem simbolizava Portugal (por serem os mais conhecidos no mundo) para fazermos uma capa de aniversário dos 25 anos do Expresso, concordámos rapidamente nestes três nomes: Amália, Eusébio e Soares. Manteria a escolha se voltasse atrás. E até acho bem que o Pantera Negra tenha lugar naquele monumento, caso se decida que entre os nossos "deuses" estão, além de literatos e políticos e uma artista fora-de-série, desportistas e todos aqueles "que por feitos valorosos se vão da lei da morte libertando".

Tudo o resto não passa de demagogia política. E da barata.

 

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