Siga-nos

Perfil

Expresso

Chamem-me o que quiserem

Acordo ortográfico - o debate exagerado

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Que os portugueses são dados a exageros, todos o sabem. Que o debate sobre o acordo ortográfico se tornou numa guerra, muitas vezes sem sentido, acho que todos o pressentem. Miguel Sousa Tavares, profissional amigo e de respeito, chamou-lhe "crime" no último Expresso, milhares de ignorantes mandam mails errados sobre normas do acordo e alguns diletantes fazem artigos de opinião. Entre todos os que se pronunciam, poucos há que percebam do assunto ou que juntem um argumento que faça sentido.

Claro que a discussão é livre, mas como todas as discussões deve ter algumas regras. Por exemplo, não vale argumentar com o facto de facto perder o c, porque tal não é verdade, Facto, em português continuará a escrever-se com c antes do t porque todos os portugueses, ao contrário dos brasileiros, leem esse c. E, digamos, isto é um facto, não é uma opinião.

Mas há mais exemplos destes, e doutros, e nem seriam sobretudo eles que aqui me traziam. Houve um debate parlamentar na sexta-feira que terminou sem conclusões; há o jornal 'Público' que, no seu direito, se recusa a aplicar as normas do acordo (já não teria o mesmo direito de - segundo se queixam leitores e o Provedor do Leitor faz eco - omitir artigos que lhe enviam a favor do acordo) e há uns cavaleiros que lutam contra moinhos, como o D. Quixote. E aqui a palavra moinhos não está por acaso. O que para D. Quixote eram os moinhos, senão uma representação de gigantes? Ora a ortografia não é mais do que a representação do idioma - e não o idioma em si, como se quer fazer crer. A representação vai mudando (e pode discutir-se se o deve fazer por decreto), mas convém levar em conta a modernidade. Isto é, quando escrevo "académico" no meu iPad, sai "acadêmico", porque o iPad só leva em conta a representação da variante brasileira da palavra. Enquanto os grandes fabricantes não tiverem uma ferramenta do português que resulte de um acordo entre todos falantes de português, incluindo, sobretudo, o mercado brasileiro, estamos condenados a escrever, cada vez mais, na variante brasileira.

E que a ortografia não é mais do que uma representação não há dúvida. No dicionário de Morais de 1945 (que seguia as normas do acordo luso-brasileiro de 10 de agosto desse ano), a primeira definição de ortografia é "representação, em geometria descritiva, de uma figura ou de um sólido por meio de projeções ortogonais". Só depois lá vinha "parte da gramática que ensina a escrever as palavras corretamente". Já no dicionário etimológico de José Pedro Machado, se diz que a palavra "vem do grego orthographia - escrita correta ou corte transversal de um edifício". E cita, em abono do que diz a seguinte frase: "Esta paláura, Orthografia, é grega: quér dizer ciençia de escreuer dereitamente. E dádo que no principio onde se trata da letera ouueramos de proseguir (...)". Este texto, de 1536, não tinha uma única gralha na altura. Isto prova que a representação se vai fazendo, ao longo dos anos e séculos de forma diferente.

Quem quiser conhecer argumentação mais aprofundada, pode lê-la aqui, num texto que escrevi há já dois anos. Mas, por agora, deixem-me apenas registar estes quatro pontos:

1)      A alteração da ortografia, ou seja da representação de certas palavras, não altera a forma como as dizemos. No Porto sempre se falou de forma diferente (dezôito) do que em Lisboa (dezóito) e as palavras eram escritas da mesma forma. Nós falamos como ouvimos falar e não como lemos as palavras, caso contrário leríamos fixo como a mesma fonética do que lixo. Os filólogos e linguistas que colaboraram na sua elaboração e os especialistas que defendem o AO, sabem isto muito bem. A televisão faz mais pela unificação dos modos de dizer do que qualquer acordo ortográfico.

2)      A alteração ortográfica não implica que cada um passe a escrever de acordo com o novo modelo (salvo os professores nas salas de aula). Eu defendo o acordo e escrevo inúmeras palavras como as aprendi (o corretor corrige-as). A ideia de que todos temos de escrever por decreto é errada. Fernando Pessoa, que nunca aceitou o Acordo de 1911, escreveu sempre philosophia. Mas hoje as suas obras não são grafadas como ele as escreveu, como não são as de Camões ou as de Gil Vicente, mas sim como nós estamos habituados a lê-las.

3)      A cedência ao Brasil é uma necessidade de quem tem 10 milhões de falantes contra 200 milhões. Se queremos manter o português como uma língua importante no panorama internacional com variantes que são próprias deste retângulo (e não apenas com as variantes brasileiras) temos de chegar a acordo com eles. Ficar orgulhosamente sós a escrever consoantes que ninguém lê, é o mesmo que dizer que o "verdadeiro português" era aquele usado do D. Diniz e que hoje, 99% das pessoas letradas não o consegue, pura e simplesmente, compreender.

4)      Mesmo aqueles autores de crónicas que se orgulham de não seguir o acordo podem verificar que muitas delas, seguindo-o ou não o seguindo, seriam absolutamente iguais. O diretor do Jornal de Letras, meu colega (e ex-diretor) José Carlos Vasconcelos fez essa estatística e, sem surpresa, chegou a essa conclusão. Na verdade, o acordo muda cerca de 2% das palavras que normalmente usamos. Pelo que o drama que por aí corre é absolutamente despropositado.

Por isso, todo o debate está empolado. De facto, anda por aí muito D. Quixote...

Twitter:@HenriquMonteirohttps://twitter.com/HenriquMonteiro                        Facebook:http://www.facebook.com/pages/Henrique-Monteiro/122751817808469?ref=hl