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Expresso

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A nossa juventude é ignorante?

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Num debate sobre o 25 de Abril realizado no antigo Liceu (e atual Escola Secundária) Maria Amália Vaz de Carvalho, no qual tive oportunidade de ser um dos participantes, juntamente com a minha colega Graça Franco (ex-aluna do liceu) e da professora da Faculdade de Letras Ana Leal Faria (que fez a transição do pré para o pós 25 de Abril como professora daquela instituição e foi do seu primeiro conselho diretivo democrático), uma aluna levantou uma questão geral, porém muito interessante:

- Os jovens atuais são uma geração ignorante?

A professora Maria Amélia Vasconcelos, que organizou e presidiu ao debate, já não tinha tempo disponível para deixar continuar uma discussão que, além disso, extravasava claramente o objetivo da sessão: explicar e debater com jovens que nasceram muitos anos depois do 25 de Abril os acontecimentos e o significado da data, no mundo, no país e na própria escola.

Ainda assim, um outro aluno interveio e considerou que a palavra 'ignorante' fora talvez mal utilizada. Seria mais correto usar o vocábulo 'desinteresse' para caracterizar aqueles alunos de 16, 17 e 18 anos (10º, 11º e 12º anos).

A polémica ficou no ar. E fez-me ver que uma boa percentagem de gente da minha geração (e mais velha) acredita sinceramente que os nossos jovens são ignorantes. E passa-lhes essa mensagem. Mas eu duvido que isso seja verdade!

Por um lado, a democratização do ensino tem vindo a permitir a muito mais jovens terem contacto com matérias, dados e assuntos que os seus pais e os seus avós nem sonhavam. Por outro - e este será o que mais me interessa - o conceito de conhecimento foi-se alterando.

Em primeiro lugar é comum confundirem-se informação, conhecimento e sabedoria. São coisas diferentes, porque a sabedoria pode não depender da informação ou mesmo de grandes conhecimentos escolares - recorde-se a sabedoria dos anciãos. O facto de haver muita informação (e hoje toda a gente, a começar pelos jovens, tem imensa informação) não significa que haja muito conhecimento, mas para além destas categorias, poderemos ir mais além.

Na geração do meu avô seria impensável alguém considerar-se culto sem conhecer bem a Odisseia, a Ilíada, ou os sonetos de Petrarca, ou clássicos, como Ovídeo, Plínio, Cícero ou Suetónio. Sem ter lido Dante e espreitado Boccacio, Ronsard Corneille, e, obviamente, Shakespeare, além dos nossos Camões, Gil Vicente, Bernardim, Padre António Vieira e por aí fora.

Nada tinha que saber de cinema, isso era considerado puro entretenimento. Assim como de música apenas dominava o essencial (as gravações eram novidade e os espetáculos ao vivo não permitiam o conhecimento que hoje se tem). Muito menos tinham de saber de séries de televisão, que nem existiam; ou de computadores, redes, smartphones, clouds.

Na geração dos meus pais já se discutia cinema como arte. Nomeadamente o cinema italiano, francês e algum de Bergman (sueco) e americano. A cultura dita clássica (greco-latina) foi-se perdendo, como foi a cultura renascentista, nomeadamente a literária e nalguns círculos interessados começou o conhecimento e debate sobre as interpretações da música clássica (com os discos de vinil). São os tempos de glória de Maria Callas, por exemplo. A música popular, até então desprezada, passa a fazer parte do que se considera cultura (jazz). O que na minha geração já é evidente, não só com a música pop como com a chamada world music, a que poderemos acrescentar a BD e as primeiras séries televisivas de culto.

Na geração dos nossos filhos e netos, boa parte daquilo que os nossos avós chamavam cultura - e que poucos de nós alguma vez dominámos -; parte do que os nossos pais discutiam e que nós ainda apanhámos, desapareceu. Na verdade, todas as gerações, penso eu, consideraram as gerações seguintes menos cultas ou ignorantes por se ocuparem de temas que os antigos não entendem e largarem outros que eles acharam essenciais.

O mesmo se passa com o conhecimento histórico. Quem, nascido na década de 60 sabe com rigor os heróis da II Guerra Mundial? Perguntem à minha geração (eu nasci 11 anos depois do fim da guerra) quem foi Montgomery, Eisenhower, ou o general Leclerc e verão que as respostas - que escandalizariam a geração anterior que acompanhou a guerra - não serão substancialmente diferentes daquilo que a juventude nascida na década de 80 ou 90 sabe sobre Ernesto Melo Antunes ou os heróis secundários (isto é que não sejam Otelo, Soares e mais uns tantos) do 25 de Abril.

Sejamos humildes. Se recuarmos à I Grande Guerra ninguém (salvo os historiadores ou os que se interessam por História) sabe o que quer que seja. E as Convenções de Evoramonte ou de Gramido, por muito importantes que tenham sido na nossa história, são totalmente desconhecidas dos cidadãos comuns, ainda que cultos. Será o mesmo que perguntar por que razão uma avenida tão importante como a 24 de Julho existe. Celebra o quê? Raros respondem.

Estes acontecimentos foram de importância extrema no seu tempo. As convenções selaram, a primeira, o fim das guerras liberais; a segunda, o fim da Patuleia e das intervenções espanhola e inglesa, derrotando os setembristas e impondo a Carta. O 24 de Julho (de 1833) é a data do desembarque dos liberais em Lisboa, libertando a capital do ultramontanismo miguelista.

Os nossos jovens do séc. XXI, com o passar do tempo, distanciar-se-ão cada vez mais dos pormenores do 25 de Abril como as nossas gerações se distanciaram dos acontecimentos e guerras dos sécs. XIX e XX. O fundamental é que o sentido da importância da liberdade, da recusa da tirania, das ditaduras, das imposições pela força permaneça como cultura. Não me preocupa que os jovens não saibam com exatidão o que foi e quem foram os protagonistas do MFA e do PREC. Preocupa-me que alguns, por erros de sectarismo de todos os quadrantes políticos da nossa geração, perguntem numa escola (como ontem me confidenciou uma professora):

- Mas comemora-se o 25 de Abril? Isso não quer dizer que a escola é de esquerda?

A escola apenas estava - e bem - a comemorar o valor da liberdade de expressão, a possibilidade de cada um poder ter as suas preferências políticas, o dever moral da participação cívica. Discutia a cidadania.

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