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Declaração de amor por Leonard Cohen

Não foi um cantor que morreu; nem um músico, nem um literato, nem um poeta. Foram quatro génios em um só. Desde que escreveu os seus primeiros poemas e romances, que foram aclamados pela crítica, passando por ganhar o Prémio Príncipe das Astúrias de Literatura (bem mais inteligente este júri que os da Academia do Nobel), até ao seu último trabalho musical, no mês passado, Cohen foi um completo homem do renascimento, ele próprio um príncipe

E hoje apetece-me escrever sobre ele, ouvir a sua música, as suas palavras, porque ele é imortal, ao contrário da maior parte das figuras com tão pouco interesse sobre as quais todos os dias escrevo. As suas palavras brotam de uma nascente limpa e desaguam dentro de cada um de nós, já com a afluência da música, onde comovem, inquietam, despertam e repousam. Se é possível amar o belo, o sublime – e eu sei que sim – digo que amo a obra de Leonard Cohen. O homem, infelizmente, jamais o conheci.

O amor, o belo, o sublime – eis conceitos que caíram em desuso num mundo em que a arte, em boa medida, deixou de ser a aspiração aos valores positivos, para se tornar num choque, na exaltação do ordinário, do vulgar, do sujo, do feio, do lixo. Não com Cohen. Com ele, o transcendente viveu em acordes, em textos, em poemas e viveu na ansiedade da busca improvável, da estrela inalcançável, do sonho impossível. Com Cohen jamais fomos condenados, como com outros, a 20 anos de aborrecimento, apesar de ele afirmar em ‘First we take Manhattan’ que tinha sido ele próprio condenado a essa sentença: “20 years of boredom”.

Que a arte se tenha, no geral, transformado numa chatice que alguns intelectualoides, no geral com ar doente, descodificam para os outros basbaques que no que veem, no que ouvem ou no que leem no geral não descortinam um sentido preciso, uma linha clara, um sentimento digno, é próprio da destruição da civilização. É Jacques Barzun, penso eu, que na sua obra “Da Alvorada à Decadência” nos recorda que o fim das civilizações foi sempre acompanhado por uma arte que deixara de aspirar ao sublime para ser asperamente chocante. Se assim é, Leonard, lá onde tu estás, na mão direita de Deus, como Antero de Quental, foste dos últimos a lutar pela nossa civilização, pelas 900 janelas do salão de dança de Viena onde se rodopia ‘Take this waltz’.

É amor, o amor puro dos trovadores. É como tu disseste do estudo nas faculdades que frequentaste, Direito em McGill, Montréal, Canadá, e estudos gerais em Columbia, Nova Iorque, EUA, “paixão sem carne, amor sem clímax”.

Como disseste, apenas escreveste música e palavras de forma honesta. Nunca pretendeste ser popstar, nem ser agreste, nem liderar a juventude, nem alterar o mundo. Pretendeste o que cantaste; dançar a valsa; Marianne, tua mulher; Suzanne Verdal (não a Suzanne Elrod, mãe dos teus filhos, mas a mulher do teu amigo Armand); os mistérios do Oriente com os budistas; a transcendência do ego; o domínio das paixões; o perdão. “Alguém tem de nos perdoar pelas escolhas que tomamos para amar, porque os caminhos são muitos e negros, e somos ardentes e cruéis durante a nossa viagem” – eis o que poderia ser o teu epitáfio.

So long, Leonard, sabe que por todo o lado no mundo houve e haverá quem te compreenda, quem ame o que tu amas, quem te perdoe. Hallellujah!

  • Estou pronto, Senhor

    Leonard Cohen foi um cavalheiro até na hora da sua morte – sabendo que o choque da partida seria imenso, fez questão de explicar que “estava pronto” e que “as coisas espirituais tomaram o seu lugar”. A preparação não torna a sua ausência mais fácil, mas consolemo-nos a pensar que ele e Marianne já devem estar juntos em qualquer parte, “a rir e a chorar de tudo, mais uma vez”

  • Leonard Cohen: A entrevista que deu ao Expresso em 2001, por João Lisboa

    Nove longos anos depois de «The Future», Leonard Cohen regressa com um novo álbum de originais, intitulado simplesmente «Ten New Songs». São dez novas canções de que ele é apenas responsável pelos (outra vez fabulosos) textos, entregando a parte musical a Sharon Robinson. Em entrevista ao Expresso, o poeta, ex-monge zen, assegura: «Não podemos viver no Paraíso».

  • Leonard Cohen é assunto de estado

    Em 2014, Leonard Cohen fez 80 anos e publicou mais um álbum, "Popular Problems". O Expresso foi a Londres ouvir os novos temas e recordamos os tempos em que este tesouro nacional do Canadá ainda não era um escritor de canções