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Câncio e Daniel vs. Correio da Manhã: um jornalista deve ser assistente de um processo?

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A propósito de um artigo de Fernanda Câncio na revista ‘Visão’, onde critica o ‘Correio da Manhã’, o meu colega comentador Daniel Oliveira veio apoiá-la contra o jornal. O diretor do ‘CM’, Octávio Ribeiro, ripostou, defendendo o seu órgão de Comunicação Social, e Daniel triplicou, reafirmando os seus pontos de vista. A mim, interessa-me pouco o assunto da vida de Câncio ou mesmo da vida de Sócrates (apenas desejo um julgamento justo e rápido), mas interessa-me muito o papel social do jornalismo. E nesta discussão avulta uma pergunta: um jornalista pode ser assistente de um processo judicial?

Devo dizer que a minha resposta vai no sentido da que foi dada por Daniel Oliveira – não pode. Isto nada tem a ver com Sócrates, esquerda, direita ou centro. Tem a ver com a função essencial do jornalismo (não do jornalismo opinativo, é óbvio, mas do jornalismo noticioso): não ser parte; pelo contrário, ouvir ambas.

Penso há muito – e quando fui diretor deste jornal impedi essa prática – que um jornalista não deve nunca ser assistente de um processo. É certo que sê-lo é um direito de qualquer cidadão. Mas discordo do diretor do ‘CM’ neste ponto essencial: sustenho que o Código Deontológico e a ética profissional dos jornalistas corresponde a uma diminuição dos seus direitos. Em contrapartida há reforço de outros direitos, como o não divulgar as nossas fontes.

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  • Lendo o texto de Fernanda Câncio ficamos a saber algumas coisas relevantes, nenhuma delas novidade, mas todas juntas bastante esclarecedoras. Que foram dois jornalistas do “Correio da Manhã” que pediram, enquanto assistentes, que Fernanda Câncio fosse constituída arguida. Jornalistas que se assumem, utilizando sempre o estatuto de assistente, como parte na investigação que fazem. Que, antes deste gesto, e perante uma ação de tutela dos direitos de personalidade contra as publicações dos grupos Cofina e Newshold de Fernanda Câncio, os diretores do “Correio da Manhã” e da CMTV defenderam-se afirmando que “nenhum dos artigos em causa levanta qualquer suspeita sobre a requerente”. Era falso. Que o “Correio da Manhã” não ouviu Fernanda Câncio nas notícias que sobre ela foi publicando, violando o Código Deontológico do Jornalista – em todo o processo de ataque a alguém que não é suspeita, arguida ou acusada de qualquer crime, o “Correio da Manhã” terá violado, na minha opinião, seis dos dez pontos do Código Deontológico. Investigar com rigor para chegar a notícias sólidas dá imenso trabalho. Construir jornais com credibilidade exige competência. A quem não a tem, resta a esperança de que a exigência dos leitores seja suficientemente baixa para chegar o pouco que lhe dão e que a justiça seja suficientemente branda para permitir o dano que provocam. É a escolha de um atalho. Só não digam que tem alguma coisa a ver com o dever de informar.Insultam os profissionais que o fazem