Siga-nos

Perfil

Expresso

Cavaco, 36 anos depois

  • 333

Chegou hoje ao que será presumivelmente o último dia da sua carreira política. Para quem disse que não era político, teve uma longevidade assinalável, ganhando quatro eleições com maioria absoluta, uma sem maioria e perdendo igualmente uma. Teve razão muitas vezes, mas perdeu-se em pormenores e decisões canhestras. Sai com a popularidade de rastos, mas isso não quer dizer que não tenha adquirido o seu lugar na História

Chegou hoje ao que será presumivelmente o último dia da sua carreira política. Para quem disse que não era político, teve uma longevidade assinalável, ganhando quatro eleições com maioria absoluta, uma sem maioria e perdendo igualmente uma. Teve razão muitas vezes, mas perdeu-se em pormenores e decisões canhestras. Sai com a popularidade de rastos, mas isso não quer dizer que não tenha adquirido o seu lugar na História.

Os políticos passam, mas os jornalistas ficam. É o meu caso. Assisti à posse de Cavaco Silva como ministro das Finanças, no dia 3 de Janeiro de 1980 e cá continuo. Nunca fui seu apoiante, nem seu admirador; mas nunca fui, igualmente seu detrator. A política portuguesa sempre me deixou de pé atrás com a rapidez com que fabrica santos e demónios. Ninguém é tão mau como alguns dizem nem tão bom como outros pretendem. Cavaco Silva está nesse naipe de pessoas que evoluiu com o país, que em parte o soube compreender, ao contrário das elites que jamais lhe perdoaram. Eis o que retiro da sua longa carreira.

1. Como ministro das Finanças de Sá Carneiro, ao interromper a desvalorização deslizante do escudo (a então moeda portuguesa), que havia sido decidida por Silva Lopes, por influência do então jovem Paul Krugman, mais tarde prémio Nobel da Economia, fez uma política eleitoralista. Às eleições que a aliança AD (PSD/CDS/PPM) vencera em Outubro de 1979, seguir-se-iam as de 1980 (na altura as legislaturas contavam-se de forma diferente). Esse ano de bodo aos pobres era essencial para reforçar a maioria de Sá Carneiro. Cavaco foi um dos pontas de lança dessa estratégia que, aliás, resultou. A AD reforçou a maioria em 1980.

2. Depois da morte de Sá Carneiro, a 4 de dezembro de 1980, durante a campanha para as presidenciais, Cavaco afasta-se do Governo. Balsemão nunca foi santo do seu altar. Aliás, nessa travessia do deserto de professor e consultor do Banco de Portugal, Cavaco dedicou-se, com método e paciência a destruir as lideranças do PSD. Primeiro, a de Balsemão, no Governo AD, depois a de Mota Pinto, que alinhara em lugar minoritário num Governo de coligação com o PS de Soares. Ajudou-o o falecido Eurico de Melo, conhecido por vice-rei do Norte, figura do PSD que dizia, em tom de brincadeira, que era importante porque no Porto achavam que ele tinha influência em Lisboa e em Lisboa porque ele era influente no Porto. A persistência deu os seus frutos no Congresso da Figueira da Foz em 1985.
3. No Congresso cria-se o mito Cavaco. É falso (como eu próprio escrevi em 1995 na revista do Expresso) que ele lá tenha ido por acaso a fim de fazer a rodagem do carro. Foi lá, com uma moção que tinha ditado a Mendes Bota, no seu gabinete do Banco de Portugal, na avenida da República. Falou com tempo cedido por este e conquistou o Congresso com o apoio do grupo Nova Esperança (Marcelo, Barroso, Júdice e Pinto Leite), além da complacência de Jardim e entusiasmo do Norte influenciado por Eurico (surgem Marques Mendes, por exemplo, assim como Dias Loureiro ou Fernando Nogueira). O derrotado é João Salgueiro, candidato a presidente do partido, que tinha na lista como secretário-geral Henrique Granadeiro. Cavaco ganha em todos os órgãos, salvo na mesa do Congresso em que Balsemão vence o candidato cavaquista.

4. O seu programa para o Partido, ali aprovado, era simples: desfazer o Bloco Central (Mota Pinto tinha falecido subitamente e fora substituído no Governo por Rui Machete) e candidatar Freitas do Amaral a presidente. Na primeira reunião entre o novo líder do PSD e o líder do PS e primeiro-ministro Mário Soares as coisas correram mal. Foi assim, sempre. Na altura, Cavaco apresentou dúvidas sobre alguns dossiês negociados com a então CEE, cujo tratado de adesão seria assinado durante o Governo do Bloco Central, mas cujos efeitos, adesão efetiva, só teria lugar a 1 de Janeiro de 1986, já Cavaco era primeiro-ministro.

5. Com a queda do governo PS/PSD, inicia-se a fase dos governos cavaquistas. Serão 10 anos. O primeiro, em minoria, até que um partido formado por Eanes a partir de Belém, o PRD, propõe uma moção de censura a Cavaco e pretende um Governo com o PS de Constâncio e o apoio do PCP. Soares, que tinha ganho as presidenciais por uma unha negra a Freitas, não concorda e dissolve o Parlamento, convocando eleições. É então que, a 17 de Julho de 1987, Cavaco consegue a sua primeira maioria absoluta (e a primeira da história da democracia portuguesa). Renova essa maioria em 1991 e deixa o Governo em 1995, depois de um tabu, que afinal era candidatar-se a Presidente da República.

6. Nos Governos, com dinheiro da Europa para distribuir, a vida corre-lhe de feição. O Estado sai bastante reforçado e a despesa do Estado ainda mais. Por isso lhe chamaram ‘o pai do monstro’. É, de facto, mas é igualmente o pai de muita ação social que se traduziu em votos e no apoio dos mais pobres. Basta ver que no Alentejo houve transferências diretas de voto do PCP para o PSD de Cavaco. Ao fim de 10 anos, fruto de desgaste natural e da guerra de guerrilha movida por Soares a partir da presidência da República, Cavaco está desgastado.

7. Perde as únicas eleições da sua vida. Para Jorge Sampaio, em 1996, obrigando-o a outra travessia do deserto, como professor.

8. Mais uma vez se distancia do PSD, nomeadamente de Santana Lopes quando este foi episodicamente primeiro-ministro, com um célebre artigo de 2005 sobre a Lei de Gresham e a má moeda. Mas isso permite-lhe, um ano depois, em 2006, vencer as presidenciais perante o apoio do PS de Sócrates a Mário Soares (então com 81 anos) que ainda tem de dividir os votos com Manuel Alegre.

9. Como Presidente, e tendo apanhado a maioria absoluta do PS de Sócrates (que vencera em 2005, depois de Sampaio dissolver o Parlamento), começa por ter um espaço de manobra reduzido. Não tem a escola de Mário Soares, simultaneamente bonacheirão e – se for caso disso – com killer instinct político. Faz discursos e tem ações absolutamente inacreditáveis, como optar pela reforma em vez do salário de Presidente (que era menor). Sabe-se da compra e venda de ações da SLN, dona do BPN que lhe deram mais-valias de monta; e, no entanto, começa a alertar para os perigos da nossa economia. Tínhamos estradas a mais e bens transacionáveis (exportáveis) a menos. Faz uma intervenção sobre o Estatuto da Autonomia dos Açores que, embora carregado de razão, ninguém entendeu. Ou seja, ninguém, ou quase, ligava ao que ele dizia. Só depois da crise de 2008 os seus alertas passam a fazer sentido. Antes disso, quem queria saber do credit crunch ou falta de dinheiro em circulação para as empresas, e de outros aspetos para que ele alertara.

10. As suas relações com Sócrates deterioram-se, sobretudo depois de o primeiro-ministro parecer não entender a brutal crise em que estávamos metidos. Em 2011, após ter sido reeleito e ter feito um discurso arrasador para Sócrates, há eleições legislativas quando o governo PS não consegue passar um programa económico restritivo no Parlamento, o PEC IV. A vitória cabe a Passos Coelho, que se alia ao CDS de Portas. Mais um líder do PSD de que Cavaco não era admirador (terá sido de algum, salvo dele próprio?). No entanto, no essencial do programa de austeridade esteve de acordo com o Governo, embora alertando para o perigo da espiral recessiva. Cavaco, que sempre foi um keynesiano moderado, não alinhou nunca por cartilhas liberais. Desconfiou sempre do que o Governo queria fazer em matéria de reformas e segurança social. Em 2015, depois de falhada a reconquista da maioria por PSD e CDS, acontece algo de inédito em Portugal: o Governo é constituído pelo segundo partido mais votado, com o apoio do Bloco de Esquerda e do PCP. Cavaco teria mais esta para engolir – e foi-lhe difícil. Os anos da presidência não lhe foram sorridentes e, embora com razão na maioria dos casos importantes, falhou no exemplo (caso BPN e reforma) e faltou-lhe algo essencial na política: jeito.

11. Se era a esta falta de jeito que ele se referia, quando afirmava não ser político, tinha toda a razão. De resto, foi o político até agora com mais tempo no ativo no Portugal democrático. 20 anos. É obra!

  • Cavaco conseguiu, sem precisar de recorrer a grandes talentos oratórios ou a qualquer instrumento de coação, convencer a maioria dos portugueses a entregar-lhe por cinco vezes o poder. As eleições deram-lhe absoluta e incontestada legitimidade democrática. Mas o instinto de Cavaco Silva é autoritário. Penso que na própria cabeça de Cavaco a imagem do professor de Finanças austero, que despreza o debate e encarna em si mesmo toda a Nação, o levou a ver-se como uma espécie Salazar da era democrática. Mas para se comparar à trágica grandeza do ditador falta-lhe tudo o resto: a cultura histórica que lhe permita representar a Nação, a cultura política que lhe permita ter um desígnio para o País e a cultura ética que lhe permita ser um modelo. Cavaco Silva é autoritário apenas porque é demasiado ignorante para compreender as razões profundas da superioridade da democracia e porque é demasiado egocêntrico para aceitar a transitoriedade do poder. É autoritário por feitio, não por convicção. Por ignorância, não por predestinação. Cavaco é afinal só Cavaco. O seu ego é o seu programa político