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Henrique Raposo e a turbamulta

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Para quem possa não saber, turbamulta é um magote de gente desordenada, no geral em tumulto. Henrique Raposo é um cronista deste jornal que escreveu vários livros, sendo o último ‘Alentejo prometido’ o pretexto para a ação da turbamulta

Que diz Raposo e que diz o livro que possa ofender a dita turbamulta? Nada de especial. E, no entanto, pelas redes sociais vai um vendaval. O meu conselho ao Henrique foi sempre que não ligue. Mas depois de ver pessoas a queimar os seus livros e ameaçar o lançamento, de tal modo que os donos da casa onde ia ser apresentado o livro suspenderam a cerimónia; depois do que li e ouvi sobre ele, o meu conselho é diferente. Não é o Raposo que tem de ligar, somos todos.

No Facebook, além de apagada a página de um jornalista que entrevistou Raposo (Pedro Boucherie) foi criada uma outra intitulada ‘Henrique Raposo – o inimigo nº1 do Algarve e Alentejo”. Quem fala em nome das regiões, não sei ao certo, mas é verdade que o ódio e as cenas canalhas são tantas, que algumas pessoas depois de aderirem já se ‘auto-expulsaram’ do grupo. Uma delas refere que a página tem sobretudo “comentários arrogantes e ridículos que perderam o bom senso”. Apesar de se poderem encontrar nessa página, aqui e ali, pessoas como esta, a maioria, a turbamulta, vai na onda. Desde fotografias com Raposo esmurrado (em photoshop) a insultos soezes à sua mãe, tudo é possível.

Ferreira Fernandes, cronista do ‘Diário de Notícias’, meu colega há muitos anos no semanário ‘O Jornal’, e jornalista que tenho por infelicidade só encontrar, nos últimos tempos, nos funerais de camaradas comuns, disse o que me vai na alma e por isso cito: “Não podem tentar calar livro e autor. O livro ia ser lançado num sítio mas já não vai, para o sítio não estar ligado ao livro - o que não diz nada do livro, e muito do sítio. Mudou-se para outro lugar, Bertrand (Picoas), dia 8, às 18.30, e a editora avisou a PSP. Fiquei avisado: devo lá estar”.

Mas que diz Raposo sobre o Alentejo e Algarve? Nada de muito especial. Basicamente trata-se de experiências pessoais e dados coligidos. Por exemplo, que a maior taxa de suicídio é no Alentejo (coisa antiga; há 40 anos já se falava nisso). Mas para a turbamulta isto é uma provocação.

Na verdade, o erro de Raposo é o seguinte: nasceu nos arredores pobres de Lisboa, filho de alentejanos que vieram procurar uma vida melhor. Estudou na escola pública, onde era maltratado pelos colegas por querer estudar a sério e não apenas passar o tempo. Licenciou-se, tornou-se investigador e cronista. Ao contrário do que os ‘verdadeiros’ alentejanos defendem, Raposo não admira a escola pública, nem os feitos do PCP na reforma agrária. E – espante-se – não é filho de latifundiários! Ao contrário dos que os ‘pobres’ da periferia se queixam, Raposo não diz que os jovens se metem na droga por falta de condições sociais. E espante-se, ele nasceu na periferia pobre!

Raposo é um caso. Porque é a prova viva de que os indivíduos fazem escolhas e não dependem apenas das circunstâncias. Aliás, esse tipo de ‘turbamulta’ que gosta de citar Ortega y Gasset dizendo “o homem é ele e a sua circunstância” costumam esquecer-se do resto da frase: “e se nada fizer para alterar a circunstância, jamais se modificará a ele próprio”. Raposo alterou a circunstância. Modificou-se. Hoje tem o poder da escrita e, concorde-se ou não com o que escreve, tem liberdade de expressão.

A ‘turbamulta’ irrita-se. Não é este o Alentejo que querem; querem um Alentejo de luta e de solidariedade. Para a ‘turbamulta’ não é este o rapaz das periferias que lhes serve de modelo. Raposo, além de inimigo público nº1 do Alentejo e Algarve, é-o também da sociologia barata.

Não está em causa o que ele pensa, nem a interpretação do livro. Esse é o pretexto. Está em causa o facto de ele existir como é. De sendo descendente de alentejanos, nascido em bairro pobre, não ser de esquerda, não se queixar da falta de condições por trabalhar sem garantias de emprego fixo e, mesmo assim, não abdicar de criticar os sindicatos e aqueles que falam em nome dele. Raposo é também o inimigo nº 1 do sindicalismo rastaquera e da política manhosa.

Além disso, Raposo, defendendo posições de Direita, não tem qualquer apelido sonante, nem estudou em colégios ou universidades recomendáveis. Também não vai às touradas, nem anda a cavalo. Para alguns destes é um parvenu, alguém que não pertence à tribo e se não é inimigo é, pelo menos, desavençado. Também aqui consegue ser inimigo público, não tão encarniçado, mas desprezado.

Enfim, Henrique Raposo é inimigo de muita gente.

  • Carta de amor ao Alentejo

    A propósito da polémica levantada com o seu livro “Alentejo Prometido”, Henrique Raposo escreveu na edição deste sábado do Expresso uma crónica a explicar as suas motivações e justificações. Leia abaixo na íntegra